Eu que tomava despreocupadamente meu café sem açúcar. Na tentativa de estabelecer diálogo voltou-se para o meu lado e indagou se eu conhecia Machado. Refiz a pergunta algumas vezes antes de responder alguma coisa, senti tanto desprezo, queria levantar, talvez vomitar nela o macarrão de ontem e, mesmo assim, ainda seria delicada. Indaga-se se alguém conhece os contemporâneos, os reclusos, aqueles menos afamados. A pergunta me caiu com tom de deboche. Quis levantar, mas fiquei por consideração ao grupo. Depois tive vontade de começar citar Dom Casmurro de trás para frente. Refiz a pergunta. E achei generoso responder um sonoro não, quem é? Esperei a resposta atenta. Quando me deparei com tanto despreparo tive pena do desperdício das citações ou do macarrão. Machado foi... primeiro ano do curso, caro leitor. Descobri depois. Tinha acabado de conhecer o prédio da biblioteca. Que amor de formas, as mãos esticadas, o sorriso seguro e já conhecedora de Machado. Terminei o café e prometi que buscaria algo desse tal Machado, quem sabe me prendesse, quem sabe... levantei falando.
Quem sou, sinceramente, estudante de sociologia, daquelas pessoas que para sempre terão que conviver com a pergunta da vizinha: mas o que você faz mesmo? Leitora viciada e jogadora de xadrez aposentada.
Nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que, foi esta que eu segui. Talvez porque para outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós.
Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas" Clarice Lispector
2 comentários:
Esse café é falso.
Minha resposta também!
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