quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

.Divina.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

.Trago um grito contido que parece querer romper.

É sempre o povo

que paga o pato


fica a pé


dá nó nas tripas


aperta o cinto


encolhe o rabo


perde a festa


e nunca tem hora.



Elza Beatriz



segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

.Ansiedade desmedida é dor pungente.

Na minha ilha, que maravilha,
Eu transo todas sem perder o tom
E a quadrilha toda grita
Viva a filha da Chiquita
Entrei pra "Women's Liberation Front"

.A música continua nos olhos, no ficar parada, no encostar-se à janela, aspirando que cheiros lá de fora?

Se apenas na minha cabeça é que havia esse muito obsceno colocar. Obsceno, Maria? Os nomes carregados de susto, falei obsceno e obsceno não era, que coisa é que fizeram às palavras, que coisa às gentes, grudaram-se à língua e aos nossos costados letras e culpas, que coisa quer dizer isso de se sentir em desejo e culpada? Se pudesse inventar essa estória do rei e ter parceria madura para concretizá-la, alguma coisa em mim sabe outra coisa que não sei, talvez porque Matamoros dormindo não sonhasse, e somente no dia a sai daquilo que os homens chamam de realidade, fosse possível transformar em verdade o que seria apropriado à fantasia da noite, Matamoros dos sonhos esquecida, vê-se tomada de sonhos no muito denominado concreto da vida, e o que vem a ser isso de sonho e verdade?



Hilst, H. Tu não te moves de Ti. SP: Globo, 2004. (p.124)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

.Não te moves de ti.

Antes de escapar, as escravas roubam grãos de arroz e de milho, pepitas de trigo, feijão e sementes de abóbora. Suas enormes cabeleiras viram celeiros. Quando chegam nos refúgios abertos na selva, as mulheres sacodem as cabeças e fecundam, assim, a terra livre.


GALEANO. A. Mulheres. L&PM, Porto Alegre: 2011 (p.96)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

.Mafalda para presidente.

.Foi só mais uma madrugada.

Nota desconexa: ontem quem levou a madrugada foi Midnight in Paris, anotei novamente a necessidade de ler O Velho e o Mar. Hoje Anne Hathaway com One Day me deixou com vontade de aprender a nadar e andar de bicicleta, andar de bicicleta eu sei. Bom dia Hilda Hilst!


Tinha as mãos cheias de pequenas flores amarelas, olhei-as como que perguntando para que serviriam, porque tão rente às flores é que lhes haviam amputado o comprido cabo, me parecendo por isso inadequadas às jarras da casa, e Haiága adivinhando pôs-se de costas para mim e um tom de naturalidade tão naturalíssima deu à frase, à frase esta – para pôr ao redor do que se vai comer – como se fosse corriqueiro entre nós naquela casa enfeitar as comidas e tolo o meu perguntar, com algum cansamento: ah sim, como aqui se faz sempre.



Hilst, H. Tu não te moves de Ti. SP: Globo, 2004. (p.107)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

.Retardos de realidade.

Eu crio tantas personagens em mim, tantas estórias de encontros, conquistas e despedidas dolorosas, algumas fáceis de sair, outras nem tanto, que às vezes penso ser uma eterna mentira vivendo. Vida de personagem construída com cuidado e mais atraente na ficção, talvez por isso tenha dormido tanto. Talvez para efeito de oposição e para me livrar tenha recorrido tanto ao café. Talvez e tanto. Depois enjoada do cheiro e percebendo que de tão enjoada começa a percorrer aquela náusea descubro que o enjôo é real. Geralmente é isso, vivendo no real padecemos de náusea crônica.


LG

.Não se assuste é apenas overdose.

Então abracei-a nuns soluços altos, mãe, vou morrer de pura e de cansante mágoa, nesta terra não há felicidade, sei que não fui boa quando ainda menina, nem depois e nem o sou agora mas tenho no de dentro tanto amor por esse que chegou à casa, se o tomam de mim anoiteço como a noite de sempre no comprido poço, hei de ser eternamente meia-noite, buraco no fim de uma pedra num confim de abismo, e deslizei colada ao seu corpo, corpo de mãe querido. Aquieta-te, pois quem o tomaria?


Hilst, H. Tu não te moves de Ti. SP: Globo, 2004. (p.105)

.Condoída das minhas noites sem ninguém.

Então larguei as ramas e as pitangas e fulva que agachei raspando o chão, atirei-lhes punhados de terra e chorei alagada, muito, tanto como se fosse entregar a alma ao Soberno.



Hilst, H. Tu não te moves de Ti. SP: Globo, 2004. (p.101)

.Pense em si mesma e procure a verdade junto aos seus.

Pequeno estrago de cabelos cortados que depois crescerão, coisa de nada. Segui pensando nela. Depois vi um filhote despencado de uma árvore de flores amarelas, subi ao tronco e coloquei-o novo no seu ninho, demorei-me no atalho de formigas e ajudei uma gorda ruivosa a carregar sua folha segurando de leve a ponta esverdeada, ai, deve ter pensado a pobrezinha que por um tempo a folha fez-se leve, e não continuei muito tempo a ajudá-la porque pensei quanto mais leve agora, depois no seguir do caminho e sem mim, ai, muito mais pesada.



Senti-me viva e generosa e boa, quase sacramentada, quase santa...


Hilst, H. Tu não te moves de Ti. SP: Globo, 2004. (p.98)

.Gertrude Stein, procure!



Um gênio é um gênio, mesmo quando nada faz.

.Faço-te o enorme presente deste aviso: ama somente o que te é parecido.

Tu é que pensas os loucos à tua maneira, à maneira de todos, coragem é o que nasce no fundo do que somos, loucos porque muito longe, lá no bulbo da coisa já sabemos se o que vem há de ter ligeireza de rato, canino de roedor, visão de olhos muito valiosa ou cegueira do pó que caminha conforme o vento manda, louco Maria, são os poucos que lutam corpo a corpo com o Grande Louco lá de cima, irmão de muita valorosidade e de peito vingante, às vezes tem sisudezas de aparência mas cavado recolhe-se e troveja antes de começar luta de coice.


Hilst, H. Tu não te moves de Ti. SP: Globo, 2004. (p.94)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

.Aqueles habitantes da terrível cidade apontaram-me um dedo.

De clima em clima andei sem nunca saber onde pousar o pesado fardo que carreguei de conhecimentos, até que tanto ver e conhecer, andar e andar, pergunta que pergunta a cada assento, a cada pedra, de depois a tantos homens que não responderam, habituaram-me a contestar sozinho, a responder-me sem ter falado: a conversar com ninguém e divertir-me.


NERUDA, P. Plenos Poderes. Lisboa: Dom Quixote. 1977 (p.125)

.Não me pus a chorar nem a dormir.

Não é por querer deixar alguém nem aos outros, nem a ti, e se escutares com atenção, na chuva, poderás ouvir que vou e venho e me demoro. E sabes que devo partir. Se não se entendem as minhas palavras não julgues que sou o que outrora fui. Não há silêncio que não se acabe. Quando chegar o momento, espera-me, e que saibam todos que saio à rua com o meu violino.



NERUDA, P. Plenos Poderes. Lisboa: Dom Quixote. 1977 (p.87)