sábado, 25 de abril de 2015

.onda que quebra.


Desperdiçou sexo do bom
Meu próprio som
E silêncio e outras raridades.

...


Nós dois
Já tivemos momentos
Mas passou nosso tempo
Não podemos negar
Foi bom
Nós fizemos histórias
Pra ficar na memória
E nos acompanhar
Quero que você viva sem mim
Eu vou conseguir também

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

.Sonho de crocodilo faz parte do chão.

Cá estou. Tomando chá de cadeira em uma sala vazia. Já não importa a forma, a norma, a técnica. Nesse tempo que o importante é ser. Já não importa a métrica. Ninguém entende. Os autores ficaram assim, todos incompreendidos. Os leitores mortos, mesmo que vivos. Já não existe vergonha e erro, o que importa é ter. Sabe-se lá das coisas, entende-se muito pouco. Importa a ilusão. E os anos passam, a vida passa, e o que importa é o vão. Esse escuro entre o hoje e um outro qualquer coisa que venha. Aquela ânsia passou, passaram todos. Já não existe senão. Todos se encurtaram, se arrasaram, beiraram o chão. O que era poesia, virou prosa. Também não importa. Importa o ontem, as lamurias, o não feito. Importa a pena. Importa que sintam, mas não. O hoje passa. O amanhã é longe. Resigna-se.

LG

.Estou convicta de outra noite insone.

Sei que ele estava naquela prateleira acima da linha dos meus olhos, atrás dos poetas portugueses, um palmo à direita da Comédia Humana, porém não será assim tão fácil reencontrar sua vaga. A esta altura os livros já estavam acomodados no fundo da estante, já se empurraram uns contra os outros, parecem que engordam quando confinados. Na ponta dos pés desloco um Bocage da fileira da frente. Há algo de erótico em separar dois livros apertados, com o anular e o indicador, para forçar a entrada de O Ramo de Ouro na fresta que lhe cabe.

BUARQUE, Chico. O Irmão Alemão. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p.10

sábado, 13 de dezembro de 2014

Claro que era neurótica, não há sequer necessidade de dizer.

Juro que nada posso fazer por ela. Afianço-vos que se eu pudesse melhoraria as coisas. Eu bem sei que dizer que a datilógrafa tem o corpo cariado é dizer de brutalidade pior que qualquer palavrão. Quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo.  


A hora da estrela.

domingo, 9 de novembro de 2014

.Viver sem tempos mortos.

A impressão que eu tenho é de não ter envelhecido embora eu esteja instalada na velhice. O tempo é irrealizável. Provisoriamente, o tempo parou pra mim. Provisoriamente. Mas eu não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro. O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar. Portanto, ao meu passado eu devo o meu saber e a minha ignorância, as minhas necessidades, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo. Que espaço o meu passado deixa pra minha liberdade hoje? Não sou escrava dele. O que eu sempre quis foi comunicar da maneira mais direta o sabor da minha vida, unicamente o sabor da minha vida. Acho que eu consegui fazê-lo; vivi num mundo de homens guardando em mim o melhor da minha feminilidade. Não desejei nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos.


Inspirada na correspondência de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

.De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos.

O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, sou nascido diferente. Eu sou eu mesmo. Divêrjo de todo mundo... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre - o senhor solte em minha frente uma idéia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!


GUIMARÃES ROSA

terça-feira, 4 de novembro de 2014

.Nada.

Não sei, lembro-me de que era feriado. Ah, como então eu queria o silêncio: ele me distrairia daquele grande vácuo divino que eu tinha contigo. Eu, a deusa repousando; tu, no Olimpo, O grande bocejo da felicidade? A distância se seguindo à distância, e à outra distância e mais outra - a fartura de espaço que o feriado tem. Aquele desenrolar-se de calma energia, que eu nem entendia. Aquele beijo já sem sede na testa distraída, o beijo pensativo no já amado. Era feriado nacional. As bandeiras hasteadas. Mas a noite caindo. E eu não suportava a transformação lenta de algo que lentamente se transforma no mesmo algo, apenas acrescentado de mais uma gota idêntica de tempo. Lembro-me que eu te disse: - Estou com um pouquinho de enjôo de estômago - disse eu respirando com alguma saciedade. - Que faremos hoje de noite? - Nada - respondeste tão mais sábio que eu -, nada, é feriado.


A paixão segundo G.H