segunda-feira, 8 de abril de 2013

.Teus papéis, teus livros, teu tesouro. Não dá bobeira!



Que ninguém me perceba porque não estou em casa hoje, digo. Desde ontem sumi e ainda não me achei, fadiga dessa minha frivolidade, desta casa. Esse perfume pelos quartos, esse cheiro de café de ontem. Que a tua relação com as mulheres seja breve, era o conselho, mas que essa ai do seu lado não passe, que demore. Senta aqui e escuta tudo isso, que confidente de ti seja sua mente perturbada, e que a tua palavra seja poupada, fecha a boca e segue vivendo. Gostaria de ter outra percepção sobre o apresentado, mas não. É isso mesmo. Muitas vezes já pensei que nasci maduro e triste, perfeito das qualidades mentais, mas muito rude com os pensamentos, muito juiz dos outros. Perfeito para ser recluso, porque as coisas em mim sabem do seu destino e tudo é adulto, tudo surge na cabeça pronto para ser colhido, e têm tanta cobrança. E surge essa vontade de sempre demolir a casa e construir de novo, como se tudo fosse possível e fácil, como se as oportunidades esmurrassem a porta, e não? E vai ter medo de que? Vai jurar que não quis o cão que sempre recusou, e que ele não lambe sua boca quando quer. Vai fazer parte de um tempo que não é o seu, e podes te tornar idiota ou sábio, mas não sucumbirá aos idiotas, a não ser pelo fato de um dia se tornar um deles e perder os padrões. A cada manhã vou me imaginar ao sol, plantando flor e cantarolando uma canção feliz, passeando com o cachorro também, ao invés de dormir a vida toda buscando cura da ressaca e das páginas viradas desses autores penumbra. Dostoiévski com gelo. Mas não gritas ajuda porque nada se faz verdade, é tudo mentira autodestrutiva e impiedosa, porque te faz feliz a duplicidade do não-momento, a invenção. Não existe whisky e ressaca, mas o cachorro do Dostoiévski existe. A vida dupla do ser.
LG

Um comentário:

Deus disse...

Em alguns momentos do texto, parecia que vc estava em um tour pela minha mente. Incrivel como consegue me despertar familiaridade com seus textos.
Sinto uma vibração de dúvida e um profundo pesar, como se algo estivesse prestes a perturbar a garrafa de Whisky.