quarta-feira, 9 de abril de 2008

.Você não é a roupa que veste.

Quando somos crianças vivemos em um mundo mágico, em uma terra de gigantes, cadeiras de gigantes, camas de gigantes. No meu caso, como também deve ter acontecido com você, chorar era um grande truque para aparecer leite na mamadeira.

A maioria dos comerciais de televisão nos vende um mundo encantado. O cartão de crédito, por exemplo, é um instrumento desse mundo onde aparecem lindas garotas fazendo compra cheias de sacolas e na hora de passar o cartão...(plinnnn) saem estrelinhas e todos ficam felizes, entretanto ninguém fala quem paga a conta no final.

Nos comerciais de carros os motoristas fogem de monstros enormes (criaturas aterrorizantes), desviam de suas patas imensas e partem rumo ao destino desejado com cara de herói. Realmente sedutor e não é muito difícil conseguir um daquele, a única grande proposta é correr para a concessionária mais próxima e reservar o seu, reservar é um termo bonito para “passar a vida toda pagando as parcelas”.

A linguagem utilizada por esses comerciais é simbólica, quase que toscamente mágica. Quando se entra em um shopping center ou coisa parecida toda estrutura presente serve para construir um lugar onírico. Os ambientes são completamente espelhados para que você perca a noção de dimensões e espaço, nunca tem relógio (em lugar nenhum) para que você perca a noção do tempo, as luzes todas se refletem e a maioria das lojas se assemelham, logo para os grandes consumidores não existe nenhum lugar no mundo mais encantador do que um belo shopping.

Por definição o ambiente já se tornou familiar, um espaço todo criado para funcionar como um gigantesco colo no qual você tem a ilusão de que todos seus desejos serão instantaneamente satisfeitos, ter a sensação de uma criança no berço.

Ora não existe nada em vasto universo mais dependente do que um bebê. Na realidade ele levará dois anos para tentar constituir uma iniciação no mundo adulto e assim começar a construir uma linguagem. Entretanto durante todo esse período ele é um ser centrado apenas em si mesmo, tão centrado em si mesmo a ponto de viver somente com seu ego absoluto, não existe nada, além dele, que sirva de ponto de referência.

Essa é a idade mental que nós temos e que nós deveríamos ter para que o sistema capitalista funcionasse perfeitamente, no máximo até dois anos.

Quando chega aos quatro ou cinco anos nós pensamos no Édipo, tomamos a figura do pai ou da mãe e partimos para as dúvidas do sim ou não. Logo o universo fica meio perigoso, pois não dá para equacionar o sim e o não em milhões de pessoas. Portanto o melhor caminho seria retardar, infantilizar e bebêtizar as pessoas para que elas nunca esqueçam a linguagem do capitalismo e possam assim desfrutar da idade do consumo absoluto.

O capitalismo é um sistema tão frágil que ele exige que todo mundo tenha no máximo dois anos de idade e consuma de uma forma egoística, egocêntrica e incessante como a qual um neném suga o leite da mamadeira.

A grande vantagem que o capitalismo tem ou a grande lavagem cerebral que ele traz é nos convencer que essa maneira de ser e essa maneira de viver é muito prazerosa. Matamos-nos, trabalhamos a vida inteira para conseguir ganhar reconhecimento e prestígio para depois ficar afirmando, olha eu tenho isso, olha eu tenho um carro, olha eu tenho uma tevê de não sei tantas, olha eu tenho um tênis de quinhentos reais, olha eu tenho. Estamos diante de uma sociedade que escravizou o trabalho, embelezou as imagens, transformou mercadorias em coisas mágicas e distorceu valores.

Quando eu era pequena eu tinha um brinquedo que era uma mamadeira de bebê que ao incliná-la para alimentar a boneca esvaziava o liquido e bastava deixá-la na vertical com o bico para cima e pronto, ela enchia. Agora é muito fácil concluir que dentro da mamadeira uma parede falsa dava a impressão de ter algo lá dentro, mas era curioso e eu brincava com aquilo infinitamente. Esse fetichismo pela mercadoria, esse nível de consumo que está introduzido em nós pela sociedade capitalista, é tudo um simulacro, uma ilusão e a grande tentativa é nos convencer que este deve ser o objetivo final da existência humana, consumir, comprar, garantir, conquistar. Nãooo! Pelo amor!

Enfim seremos insatisfeitos e pasmem, é isso que alimenta o capitalismo. Bem vindos à vida real! Muitos vivem a dura realidade de não realizar muitos desejos. Precisamos desenvolver certas estratégias porque nosso mundo é razoavelmente pobrezinho, esse mundo mágico não é tão encantado assim, a maior parte de nós mal conseguem fazer comida aparecer em cima da mesa e teto aparecer em cima da cabeça. Deveriam ter dado a todos a cartilha básica do carpe diem.

lg

6 comentários:

Fenrisar disse...

See Please Here

Anônimo disse...

Eita moçaaa o que falar.

Caligula disse...

quem sabe um dia criaremos consciência.

Anônimo disse...

É bem isso que vemos todos os dias em grandes doses, achamos bonito, por isso não sabemos nos definir.

Anônimo disse...

Seria certo dizer a todos que a sociedade reprime? Será que todos não sabem mesmo? Quem sabe não diz ou quem diz desfarça não saber. Acho confuso vizualizar a fome. Mas sei que ela existe. Finjo que não estou sabendo ou apenas coloco-me no meu lugar. Qual é o meu lugar?

Anônimo disse...

VOcê tem um emprego e um salário miserável?

Tem gente que não tem nada!