terça-feira, 14 de janeiro de 2014

.Com cadeiras na calçada.

Depois que demoliu a velha casa ficamos no aguardo de algo animado. Uma família com um cachorro. Crianças correndo com uma mangueira de água. Uma gata gorda pronta pra infestar os telhados. Esperamos, como oportunidade única, que surgisse uma dessas mães que faz bolo as três da tarde. Aquele vizinho bom para cuidar da churrasqueira. Foram semanas esperando. Cruzamos os dedos para que aquele casal ficasse e que ouvisse Beatles. Mas se foram, como muitos outros. E o terreno foi tomando um aspecto de nunca. Ninguém mais visitou. Nenhum interesse. Só aquela floresta que parecia brotar sem pausa. Era o esconderijo das noites de terror. Corríamos pra lá com uma lanterna, com as pilhas fortes, e um monte de reza na ponta da língua. Depois todos se espalhavam gritando, como se ouvissem algo, ou como se fosse necessário fazer aquilo para que o lugar ainda significasse. Quando ninguém mais esperava começaram a levantar outra casa, um casal jovial acompanhados de sogro e sogra, sem filhos ainda, mas com vontade de ter, confessou a vizinha. Sem cachorro, gato, ou passarinho que seja. Ouviam uma banda americana, com uma levada para o Rock, mas não era Beatles. E o sogro ouvia jazz em um aparelhinho de pilha, dai minha simpatia por ele. O fato foi que depois de tudo montado, quando havíamos guardado o rosto de cada um deles, começaram a encaixotar tudo de novo. Não deu tempo de ver filhos, cachorro, gato, passarinho, bolo, churrasco, nada. A casa se esvaziou, nenhum comprador jamais apareceu, e a floresta cresceu revigorada.


LG

Um comentário:

Rose Fávero disse...

Parabéns Luana, maravilhoso este texto.Me emocionei.
Rose