sexta-feira, 10 de maio de 2013

.Não sei o título.


Rodamos por ali. A maioria dos túmulos ficava acima do solo. Eu não gostava desses lugares, mas estava esquecido da morte. Pareciam casinhas, com pilares e degraus nos frontispício. Cada uma tinha uma porta de ferro trancada. Dee Dee estacionou e pulamos fora, ela tentou abrir uma das portas. Fiquei olhando sua bunda balançar enquanto ela mexia na porta. Pensei em Nietszche. Lá estávamos: um garanhão alemão com uma égua judia. A pátria ia me adorar.
Bukowski

.Se é pra falar de verdades.


Em torno, obscuro, o campo é uma grande falta de ruído que cheira quase bem. A paz de tudo dói e pesa. Um tédio informe afoga-me. Poucas vezes saio para fora das paredes, e vou ao campo. Quase nunca ali passo um dia, ou de um dia para outro. Mas hoje, que este amigo, não me deixa não aceitar o seu convite, vim para aqui cheio de constrangimento. Como um tímido para uma festa grande.
Fernando Pessoa

quinta-feira, 9 de maio de 2013

.que dia, que tristeza, que noite...

Que agonia!

A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência. Há inteligência inconscientes.


segunda-feira, 6 de maio de 2013

.Que não esqueça que a subida mais escarpada, e mais a mercê dos ventos, é sorrir de alegria.




Eu vou continuar. É exatamente da minha natureza nunca desistir, nunca me sentir ridícula, eu me aventuro sempre, entro em todos os palcos.

.Era uma dessas coisas lindas que têm por ai.


Não me falta cadeira
Não me falta sofá
Só falta você sentada na sala
Só falta você estar
Não me falta parede
E nela uma porta pra você entrar
Não me falta tapete
Só falta o seu pé descalço pra pisar
Não me falta cama
Só falta você deitar
Não me falta o sol da manhã
Só falta você acordar
Pras janelas se abrirem pra mim
E o vento brincar no quintal
Embalando as flores do jardim
Balançando as cores no varal
A casa é sua
Por que não chega agora?
Até o teto tá de ponta-cabeça
Porque você demora
A casa é sua
Por que não chega logo?
Nem o prego aguenta mais
O peso desse relógio
Não me falta banheiro, quarto
Abajur, sala de jantar
Não me falta cozinha
Só falta a campainha tocar
Não me falta cachorro
Uivando só porque você não está
Parece até que está pedindo socorro
Como tudo aqui nesse lugar
Não me falta casa
Só falta ela ser um lar
Não me falta o tempo que passa
Só não dá mais para tanto esperar
Para os pássaros voltarem a cantar
E a nuvem desenhar um coração flechado
Para o chão voltar a se deitar
E a chuva batucar no telhado
A casa é sua
Por que não chega agora?
Até o teto tá de ponta-cabeça
Porque você demora
A casa é sua
Por que não chega logo?
Nem o prego aguenta mais
O peso desse relógio

sábado, 4 de maio de 2013

.Brasileirinho, linha por linha.

Sem folha não tem vento.
Igual a como quando eu passo no subúrbio,
ai me dá uma tristeza no meu peito.
Que noite mais funda kalunga,
o coração de pássaro no fundo do cativeiro.
o batuque das ondas nas noites mais longas me ensinou a cantar,
que viagem mais longa Kandonga,
batendo o samba no meu peito.
O céu cobriu nas noites de frio minha solidão,
vou aprender a ler pra ensinar meus camaradas.

Eu cheguei vestido de rei, quem me chamou?
Eu vi que o vento zuniu, eu vi que a folha caiu, eu vi que relampiou,
a correnteza do rio vai levando aquela flor,
meu bem já está dormindo,
zombando o meu amor.
Cabocla, teu penacho é verde, é da cor do mar,
eu vou me banhar nas águas claras de Janaina.
Que saudade do luar da minha terra,
na serra branquejando,
folha seca pelo chão.

Parece até que a alma da lua descansa,
escondida na carganta do galo a soluçar.
Brasil que eu amo, que seria de mim sem a fé em Antônio?
Saúde que foge, volta por outro caminho,
maldade que vem vai.
Olha para o céu meu amor, vê como ele está lindo.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

.Minha casa vivia na sua.


Explicar que esse é o terceiro rabisco que arranho nesse papel e que os textos não precisam ser tão auto-explicativos para surtirem efeito, é um começo relevante. No dia de hoje registra-se: que calor! Que desvarios! Dizer, como a escritora de ontem a noite, que seria interessante construir tua casa no meu quintal, erguer as paredes com furos e deixar-te morar sem saber. Te espiaria a vida toda, em uma doença frenética pela sua presença. Relembrar no pré-sonho que a casa sempre era encontrada limpa, seus pertences espalhados pela cômoda, alguns sapatos enfileirados, seus perfumes, o ambiente todo cheirando flor. E te espiaria nos afazeres. Gostava de te ver cozinhar, chorando com as cebolas, lambendo a palma da mão, se irritando com o fogão lento... Ria como se participasse. Quando me pegava rondando dizia com a fase avermelhada – vou ao pomar, e seguia. Fato é que as árvores do pomar eram secas e mortas, mas eu acreditava que não, e como nunca ninguém aparecia lá, ficava assim mesmo. Minha casa vivia da limpeza da sua, e quando vinha o impulso de arrumá-la pensava no desperdício de tempo e corria para os fundos. Destampava os buracos para ver suas reuniões que deveriam ser particulares, ver suas mãos conversando e cortando o vento, mas pausava nos seus beijos que não era meus, esses eram todos momentos cegos, tampava os portais nas suas intimidades, via só o suportável, quase nada. Via a introdução na busca de um gesto de recusa, de falta de sintonia, que justificasse minha entrada. Quando chegava a outra, ela passava pelo meu corredor e batia na casa dos fundos, era um soco. Esperava sair, e depois espiava de hora em hora, seus suspiros, sua admiração, seu encantamento, era como se o pré-sonho se carregasse de transformar tudo aquilo em meu. Era tudo possível. Impossível era te expulsar e demolir a casa do quintal dos fundos.
LG 

.Um cisco, um nada.


Perderá de mim todas as horas. Porque só me tomarás nas lembranças. E talvez venhas num instante de vazio. Imagina-te o que perderás, eu que vivi no coro dos poetas, e caminhei a chama dos caminhos. Atravessei o sol, toquei o muro de dentro. A boca nos sentimentos. E fui tomada, ferida de malabarismos da mente, de gozo, de morte, imagina-te.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

.Nossas vidas não são tão diferentes, embora tentamos acreditar que são.


Donny me trouxe o drinque e ficou conversando com Dee Dee. Eles pareciam conhecer as mesmas pessoas. Eu não conhecia ninguém. Custou pra eu me interessar pelo papo. Não ligava pra aquilo. Não gostava de Nova Iorque. Não gostava de Hollywood. Não gostava de nada. Vai ver, eu estava com medo. É isso: eu tinha medo. Eu queria ficar sozinho num quarto com a janela fechada. Fiquei curtindo essa ideia. Eu era um trambolho. Eu era um lunático. E Lydia tinha ido embora. Acabei meu drinque, Dee Dee pediu outro. Começava a me sentir patrocinado, e isso era ótimo. Ajudava minha tristeza. Não tem nada pior que ficar duro e perder sua mulher. Nada para beber, nenhum trampo, só as paredes, e você sentado ali, olhando pras paredes e pensando. Eu ficava desse jeito quando as mulheres me deixavam, mas elas também saíam feridas e debilitadas. Isso era uma mentira, mas pelo menos é o que eu gostava de pensar (BUKOWSKI, 1984, p. 51).

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BUKOWSKI, C. Mulheres. São Paulo: editora brasiliense, 1984.  

domingo, 28 de abril de 2013

.Eu bêbado e a Lydia louca era uma parada de igual pra igual.


Levantei e fui até a mesa da cozinha onde ficava minha máquina de escrever. Acendi a luz, sentei, e escrevi uma carta de quatro páginas para Lydia. Daí, fui ao banheiro, peguei uma gilete, voltei pra mesa e caprichei num drinque. Dei um talho no dedo. O sangue escorreu. Assinei a carta com sangue. Fui até a caixa de correio, na esquina, e enfiei a carta.

BuKoWski

quinta-feira, 25 de abril de 2013

.Tanta lembrança esse carinho trouxe.



Quando entrei em contato com Chico Buarque já era 2004, depois disso comecei a entender o oculto das suas canções, as provocações políticas, antes não percebia nada disso. Fiz laboratório e busquei interpretar suas canções por mais de quatro anos, quase todos os dias. Era um delírio, Chico era inatingível. Mas, dentre todos seus discos, um me chamava muita atenção. Não percebi de imediato, mas me tocava. Quando em 2006 criei isso aqui Chico já estava em mim, seus poemas, suas músicas, seus autores preferidos, enfim... Em 2008 o pai de Chico inspirou meus estudos e estava tudo entre família. Era uma doçura descobrir as particularidades do pai e imaginar a infância do filho. Até que aquele disco de antes, despertar de muitas emoções, revelou seu mistério e me tirou da mira direta da família Buarque. O disco, a voz, a emoção, a entonação feminina era o diferencial, era o momento ápice do dueto, era Maria Bethânia. Mudei rapidamente o foco, agora era ela e depois dela era ele, inverteu-se tudo. Deveria ter estudado a mãe dela, mas como não me dou com antropologia e questões religiosas, muito escaparia. Ai virou essa coisa louca, Bethânia no seu devido pedestal, ao lado de Hilst, com outros ao redor. Nota: como foi bom descobrir um poema da Hilst cantado por Bethânia, foi quase mentira ouvir, foi um momento impar, coisa de orgasmos intelectuais, malabarismos da mente, coisa boa. Singularidades da formação de cada um, que muitas pensam que não, mas pesa.
LG

.Gostava de Lisa. Ela ia ser ultragostosa algum dia. Ou uma gostosa com personalidade. Mas amava Lydia.



Essa coisa de amor é complicadíssimo. Estava quase dormindo quando Lydia, de repente, sentou empertigada na cama. E gritou. Um grito alto.
- Que foi? – perguntei.
- Fica quieto.
Esperei. Lydia ficou sentada, sem se mover, por uns dez minutos. Daí, tombou de novo sobre o travesseiro.
- Eu vi Deus – disse ela. – Acabei de ver Deus.
- Escuta aqui sua cadela, você quer me deixar maluco?
Me levantei e comecei a me vestir. Estava puto. Não conseguia achar minha cueca. Foda-se, pensei. Deixei-a onde quer que estivesse. Já vestido fui pra sala.
- Você vai embora! – ela gritou.
Ela pulou em cima de mim. Costumava me atacar quando eu estava calado. Agora eu estava triste e calado. Saltei de banda e ela caiu no chão, rolou, ficou de costas. Passei por cima dela no caminho para porta. Ela espumava de raiva, rosnava, mordia os lábios. Olhei-a no chão. Ao me ver sair, ela deu uma rosnada, cravou as unhas na manga do meu casaco, deu um puxão – e lá se foi a manga.
Abri a porta e saltei pra fora, com um braço nu.
Quando me livrei dela, acelerei o carro. Olhei pelo retrovisor e a vi parada sob o luar, sozinha e imóvel. Minhas tripas se retorceram. Me senti doente, inútil, triste. Estava apaixonado por ela.
Bukowski

quarta-feira, 24 de abril de 2013

.Eu só ficava olhando para aqueles olhos azuis.


Eu tinha um amigo, o Bobby. Bobby andava encrencado consigo mesmo e com sua mulher, Valerie. Uma noite ele ligou e disse que estava trazendo Valerie para dormir comigo. Gostei da ideia. Valerie tinha 22 anos e era absolutamente adorável, com seus longos cabelos pretos. Uns olhos azuis malucos e um lindo corpo. Como Lydia, ela também tinha passado um tempo no hospício. Um pouco depois do telefonema escutei o carro de Bobby parando na frente do condomínio. Valerie desceu. Lembrei de Bobby me contando que, ao apresentar Valerie a seus pais, eles fizeram um comentário sobre o vestido dela – que eles tinham gostado muito – e ela disse: “Ah é? E que tal o resto?” E suspendeu o vestido acima dos quadris. Estava sem calcinhas. Nunca me esqueci disso. Bobby tinha uma grande mulher. Loucura a dele de jogá-la na mão dos outros. 
Bukowski

segunda-feira, 22 de abril de 2013

.Com o rosto lavado saiu do quarto com a resposta na ponta da língua, procurou a outra, não encontrou.


Subiu na mesa, parou a festa, tomou um gole e pediu atenção. Sapateou, rodou lá em cima, foi difícil. Era patético. Uma deprimente cena juvenil, sofrida e tocante, engraçada pra quem não estava envolvido. Mas tinha tanto pra expulsar, elefantes galopando suas costas. E começou... deixou porque teve que ir embora, não deixou por recalque meu. O sexo não funcionava mais, e a boca não tinha mais aquele gosto de desejo, era uma obrigação entende? Tudo rotina, tudo uma coisa vazia. Não era esse negócio de amor, paixão também não era. Era uma amizade gostosa. Era amizade também, porque agora nem isso é. E saiba vocês que fui a deixada por não dar muito empenho, coloquei mais gelo no gelo, encaixotei a sedução, me meti com meu trabalho. E assim foi. Levantava cedo e colocava só uma xícara na mesa do café, só minhas músicas tocavam, só meus livros estavam na estante, só minhas toalhas estavam no cesto, era tudo meu, até a solidão. Até os quadros eram meus. Não tive tempo de parar de pensar assim. Pensar que era tudo nosso, e que existíamos todos ali com o cachorro, eu queria isso. Também não tive, e me fez falta, foi uma cabeça minha esculpida, igual a do Bukowski, presente dado por ela, queria uma cabeça pra deixar na calçada, pra ligar desdenhando, pra fazer chantagem, mas não tinha cabeça. Mulher despeitada faz chantagem, mulher largada faz chantagem, mulher recalcada também. Desci e as pessoas me olhavam uns com cara de mais amigos do que antes, ternos, outros viravam o rosto quando eu os fitava como se dissessem “eu não ouvi nada disso”, e no caminhar fui relaxando, arrumando a postura, erguendo a cabeça e me livrando de tudo aquilo. O bom era a reflexão, teve casais brigando depois, teve gente se beijando, fazendo juras, uns ressaltaram boas qualidades, outros lavaram roupas sujas, e me esqueceram ali, ouvinte, observando o resultado. A menina que me ateou líquido no rosto foi vista encolhida e anônima, com o desgosto da resposta estampado. Eu sorridente e irônica. Digna de uma mentira bem contada e enfeitada, toda feliz com o resultado do improviso, do conto e da imaginação.
LG

.Recebeu todo o líquido do copo na cara e ouviu: - sua recalcada, por isso que sua mulher te deixou. Sem ligar enxugou o rosto e se recolheu.


Lydia e eu estávamos sempre brigando. Ela adorava um flerte e isso me irritava. Quando a gente saía pra comer, eu tinha certeza que ela ficava cruzando olhares com algum homem no restaurante. Quando meus amigos vinham me visitar e Lydia estava lá, eu percebia o papo dela se tornando íntimo e sexual. Ela costumava se sentar bem perto dos meus amigos, colando-se o máximo possível a eles. E eram as minhas bebedeiras que irritavam Lydia. Ela adorava sexo e os meus porres atrapalhavam nossas trepadas. “Ou você ta muito bêbado pro negócio à noite ou passando muito mal de manhã”, ela dizia. Lydia ficava uma fera se eu bebesse uma única garrafa de cerveja na sua frente. A gente rompia pelo menos uma vez por semana – “pra sempre” – mas acabava dando um jeito de voltar. Ela terminara de esculpir minha cabeça e me dera o troço de presente. Quando a gente rompia eu botava a cabeça ao meu lado, no banco da frente do carro, tocava pra casa dela, e deixava o troço na soleira da sua porta. Daí, ia pruma cabine telefônica, ligava pra ela e dizia: “ A porra da cabeça tai fora, na sua porta!” A cabeça ia e vinha o tempo todo...
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