quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

.Nada em mim é permanente, e tudo é permanência, vínculo.


Até para sofrer, a gente carece de quietação. Para sofrer com capricho, acondicionado, no campo de se rever. Só o medo da miséria do uso – um medo constante, acordado e dormindo, anoitecendo, amanhecendo.


ROSA, J. G. Manuelzão e Miguilim. RJ: Nova Fronteira, 2001. (p. 176)


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

.É difícil alguém ajudar pessoas pobres e ilustres.

E vocês acham que prendem alguém que expele o verdinho por todos os buracos? Ah, como é bom ser rico, gordo e invisível. Ando cada vez mais pobre, mais magra e mais visível. Acho que todos nós. Ando mais triste também. Ando procurando um Mecenas, mas acho que só houve aquele, o primeiro. Um amigo meu, muito rico, diz que artista não precisa de dinheiro, que quanto mais pobre, melhor a obra. Verdade, logo se matam. A obra fica. Bom dia, leitor. E ainda que as janelas se fechem, é certo que amanhece.


HILST, H. Cascos & Carícias & outras Crônicas. SP: Globo, 2007. (p.121)


.Se todo mundo tivesse o hábito de pensar, havia mais piedade.

Tu não é ninguém, meu chapa, tudo é transitório, a casa que cê pensa que é sua vai ser logo mais de alguém, tu é hóspede do tempo, negão, já pensou como vai ser o não-ser? Tá chateado por quê? Tu também vai envelhecer; ficar gling-glang e morrer... (há belas exceções, como o Bertrand Russell fazendo comício aos noventa, mas tu não é Bertrand Russell). Até o Sartre, gente, inteligentíssimo, ficou na velhice se mijando nas calças e fazendo papelão. Ta jogando fora o jornal, benzinho? Tá contente?

HILST, H. Cascos & Carícias & outras Crônicas. SP: Globo, 2007. (p.116-7)