Até para sofrer, a gente carece de quietação. Para sofrer com capricho, acondicionado, no campo de se rever. Só o medo da miséria do uso – um medo constante, acordado e dormindo, anoitecendo, amanhecendo.
ROSA, J. G. Manuelzão e Miguilim. RJ: Nova Fronteira, 2001. (p. 176)
E vocês acham que prendem alguém que expele o verdinho por todos os buracos? Ah, como é bom ser rico, gordo e invisível. Ando cada vez mais pobre, mais magra e mais visível. Acho que todos nós. Ando mais triste também. Ando procurando um Mecenas, mas acho que só houve aquele, o primeiro. Um amigo meu, muito rico, diz que artista não precisa de dinheiro, que quanto mais pobre, melhor a obra. Verdade, logo se matam. A obra fica. Bom dia, leitor. E ainda que as janelas se fechem, é certo que amanhece.
HILST, H. Cascos & Carícias & outras Crônicas. SP: Globo, 2007. (p.121)
Tu não é ninguém, meu chapa, tudo é transitório, a casa que cê pensa que é sua vai ser logo mais de alguém, tu é hóspede do tempo, negão, já pensou como vai ser o não-ser? Tá chateado por quê? Tu também vai envelhecer; ficar gling-glang e morrer... (há belas exceções, como o Bertrand Russell fazendo comício aos noventa, mas tu não é Bertrand Russell). Até o Sartre, gente, inteligentíssimo, ficou na velhice se mijando nas calças e fazendo papelão. Ta jogando fora o jornal, benzinho? Tá contente?
HILST, H. Cascos & Carícias & outras Crônicas. SP: Globo, 2007. (p.116-7)
Quem sou, sinceramente, estudante de sociologia, daquelas pessoas que para sempre terão que conviver com a pergunta da vizinha: mas o que você faz mesmo? Leitora viciada e jogadora de xadrez aposentada.
Nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que, foi esta que eu segui. Talvez porque para outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós.
Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas" Clarice Lispector