sexta-feira, 13 de maio de 2016

.Escolhe também outro disco, que esse já era.


Gosta de dar aulas para Maria Clara: elas são, hoje, fugas da rotina da universidade da qual começa a sentir-se cansado, ensinando, pelo décimo ano consecutivo, as mesmas coisas a pessoas invariavelmente desinteressadas e desinteressantes. Seu relacionamento com os alunos é frio, quase impessoal: um pouco por timidez, um pouco por européias noções de hierarquia que se recusa a abandonar. Isso nunca chegou a incomodá-lo, especialmente há alguns anos atrás, quando a presença de Lillian tornava outras presenças desnecessárias. Depois, as relações entre ambos foram-se deteriorando e, quando mudou-se para o Brasil, ela recusou-se a acompanhá-lo. Embora tivesse sentido algum prazer em mortificar-se com o fracasso de seu casamento, anos depois Archibald se viu forçado a reconhecer que, na época, o que sentira fora principalmente uma sensação de alívio e liberdade. Não havia mais ninguém para controlar-lhe os movimentos ninguém para reclamar dos cachimbos, impedi-lo de dedicar-se a seus poemas ou abaixar o volume da vitrola. Não havia mais ninguém, igualmente, para afagar-lhe os cabelos, nenhum corpo à noite. Esta ausência, entretanto, só veio a notar muito tempo depois na verdade, quando começou a dar aulas para Maria Clara. Agora gostaria de ter, eventualmente, alguém com quem conversar, algum amigo. Mas os anos de solidão e uma timidez que, geralmente, não se encontra nos homens atraentes, o desacostumaram de conversas íntimas, de confidências sussurradas a meia luz por sobre os cinzeiros. Na universidade, não consegue trocar mais do que polidos cumprimentos com os colegas; dos alunos, sente-se cada vez mais distante com o passar dos anos. Aos 40 anos é um homem só — e, se por um lado, a solidão ensinou-lhe muito a respeito de si mesmo, há sentimentos sobre os quais não lhe disse nada, dos quais começa a ter medo porque os julgava esquecidos para sempre.

Rónai

.Remexe uma pilha de cadernos, procura a pagina certa.

Humildade com técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que erro dá à vida, faz perder muito tempo.


Lispector

.Relincho de amor, malgastado porque o escutar se faz em ouvidos velhos.

Começo a sentir o galope da minha música, cascos rompendo um linho de teia, cada um de nós tem a sua dileta melodia, sabe abrir-se e fechar-se, lentidão de sanfona, rapidez de fole, a música do seu corpo, da sua fala, do seu caminhar deixa rastro nos ares do sigilo e pergunta, nunca se sabe até onde o último sonido, pensamos agora vai terminar, último acorde, e atrás de nós outra vez os pisados de lebre, roçar leve nos capins, perguntamos cantaste? Ela responderia: lá dentro sim. E a música continua nos olhos, no ficar parada, no encostar-se à janela.


Hilst

sexta-feira, 8 de abril de 2016

.Quem do mundo a mortal loucura, cura.

The Best of Blue. Tem como começar melhor? Não. Podemos melhorar aos poucos, mas ao som de Miles Davis 1959 – Kind of Blue, parece mesmo que a coisa começou certa. É sexta, todo mundo espera alguma coisa de uma sexta a noite. Do sábado Lulu espera mais, Rá. Entretanto é sexta, blues, whisky (uísque para abrasileirar), folha em branco, parece aquele pedacinho do céu. Do meu, porque alguns achariam esse meu céu tedioso. Tem papel no céu, Teístas? Se não tem acabou a graça celeste. Tem Blues? Jazz? Rock? Tem que ter, gente. Tem que ter fone de ouvido no céu também e o pessoal não pode ter sexo, genitais, vontades, etc. Quem deu deu, quem comeu comeu, morreu? Não dá nem come mais, a-ca-bou a palhaçada. Vira tudo amiguinho, por isso dá tempo de brincar com leão, pentear ovelha. Hmmmm. Parece tão agradável. Dave Brubeck é agradável – Take Five, parece ter saído de um filme policial, estilo Sherlock. Os bares estão cheios de pessoas desagradáveis, tentando disputar com outras pessoas que vida vai melhor. Bukowski era sujinho, mas não é porque é descuidado que não sabe das coisas, Buk trocava um bar por uma garrafa em casa e sua vitrola: “o uísque é o cão engarrafado”, reflita. Estou lendo um livro do Orwell, na sua biografia diz que ele era totalmente contra homessexuais, coisa estranha, hoje o mundo está dividido entre contra e a favor de quem quer transar com pessoas do mesmo sexo, antes o mundo se dividia contra ou a favor de pessoas negras e brancas juntas, polêmico essas coisas, debates tão datados. Do tipo que você se posiciona depois se arrepende. Fiz uma vela cítrica com laranja e cravos, linda linda, mas me senti meio hippie, como sei que não tenho vocação para isso fiquei mais tranquila. Que medo do rótulo. Quem precisa de bar com papel, caneta, lápis e silêncio (em casa). Si-lên-cio. Ela sabe dividir as sílabas gente. Coisa boa. Como é bom-ruim crer e descrer na humanidade. Dá para fazer várias coisas produtivas, ouvir Horace Silver – Song for my Father, acreditando que você está bem assim, com seus papeis e livros. Que gracinha essa música, melhor do que tudo que temos por ai, tirando Chico e Bethânia e o povo do tempo deles. Queria falar da música nova da Bethânia, mas esse Silver, gente, que talento, vou esperar ele acabar, ai falamos. Temos tempo, o bar não fecha, a estante está cheia, a garrafa -nem tanto. Pausa aqui. Silver, seu lindo. Acabou, agora podemos mudar de assunto, porque a música desconcentrava, dá vontade voltar, mas ai o texto não termina. Puta merda, começou outra pra quebrar as pernas, Coltrane – My Favorite Things, belíssima. Vou ter que falar da talentosa no meio desses fofos, então lá vai, Betha cantou uma música chamada Mortal Loucura, o que é isso? Escutem. Você vai atingir a felicidade em segundos, por entender o que ela fez com as palavras, depois você fica se achando o máximo da inteligência, depois você só presta atenção na voz mesmo, que já é o suficiente né? Por Deus. Odeio quando pegamos o copo com algo gelado dentro e vamos levá-lo a boca e o suor da caneca fica pingando na calça, tem que resolver isso. Não teve mesóclise ainda: fazê-la-ei. Texto longo: terminá-lo-ei. Foi bom.


LG

Dizem que Garganta era capaz de convencer de que preto era branco. Quatro pernas bom, duas pernas ruim.

“O que quer que ande sobre duas pernas é inimigo, o que quer que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo. Lembrai-vos também de que na luta contra o Homem não devemos ser como ele. Mesmo quando o tenhais derrotado, evitai-lhe os vícios. Jamais um animal deverá tiranizar outros animais. Fortes ou fracos, espertos ou simplórios, somos todos irmãos. Todos os animais são iguais”. (p.15)

Onde começa o problema: “Os porcos não trabalhavam, propriamente, mas dirigiam e supervisionavam o trabalho dos outros. Donos de um conhecimento maior”. (p.27)

Teoria x prática: “Era sempre os porcos que propunham resoluções. Os outros bichos aprenderam a votar, mas nunca conseguiram imaginar uma resolução por conta própria”. (p.30)


ORWELL, George. A Revolução dos Bichos.  SP: Companhia das Letras, 2007.