terça-feira, 4 de novembro de 2014

.Nada.

Não sei, lembro-me de que era feriado. Ah, como então eu queria o silêncio: ele me distrairia daquele grande vácuo divino que eu tinha contigo. Eu, a deusa repousando; tu, no Olimpo, O grande bocejo da felicidade? A distância se seguindo à distância, e à outra distância e mais outra - a fartura de espaço que o feriado tem. Aquele desenrolar-se de calma energia, que eu nem entendia. Aquele beijo já sem sede na testa distraída, o beijo pensativo no já amado. Era feriado nacional. As bandeiras hasteadas. Mas a noite caindo. E eu não suportava a transformação lenta de algo que lentamente se transforma no mesmo algo, apenas acrescentado de mais uma gota idêntica de tempo. Lembro-me que eu te disse: - Estou com um pouquinho de enjôo de estômago - disse eu respirando com alguma saciedade. - Que faremos hoje de noite? - Nada - respondeste tão mais sábio que eu -, nada, é feriado.


A paixão segundo G.H

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

.Eu quero a recompensa.

Ah, eu quero te dizer, que o instante de te ver custou tanto penar. Não vou me arrepender! Só vim te convencer, que eu vim pra não morrer, de tanto te esperar. Eu quero te contar! Das chuvas que apanhei, das noites que varei, no escuro a te buscar. Eu quero te mostrar! As marcas que ganhei, nas lutas contra o rei...  

Buarque, Chico.

sábado, 18 de outubro de 2014

.Não vem.


Um querer viver trancado o corpo em silêncio o som sem se ver desejo de estar além sair na rua ver fogo fogo foge do ar notar nem pensar querer solidão de manhã os pássaros parece uma flauta essa palavra mesmo eu coloquei depois que ouvi melhor assim fi fi shhh sinestésico o sono vai passar a onomatopéia sem querer o erro sombras severas aconteceu em outubro o tempo corre corra corra dê a volta vou com você de estar na sala o quarto ficou pequeno minha solidão o querer toma tempo deves? perguntas me perguntas te moves? a morte estranha ao lado de todos a nuvem de poeira a terra que vai me enterrar segredo de estar aqui e ali acolá cabelo unha boca pé? como fica? quer saber saudade você imensidão de saudade um banzo eu arrumo essa insônia tudo deixo para lá um porta-retrato retratos em branco e preto.

domingo, 5 de outubro de 2014

.Quanto o assunto é eleição mediocridade é palavra bonita.


Credo! Quanto mais você viaja Brasil adentro mais entra em contato com o povão famélico, desdentado e mirrado. Na TV anda tudo colorido e explodindo de alegria, acabou? Um amigo meu foi para o Ceará e passou os dias chorando! As crianças todas tortas, todos pedindo comida sem parar... e 500 toneladas de farinha apodrecendo. Nossas vidas ficaram dilatadas de significado, mas, mesmo assim, hoje se dá feliz tudo, se ri e comemora. O simbólico camufla a desgraça, que como sempre é fraca para competir com tanta alegria. Feliz o que mesmo? Feliz mediocridade!
LG

sábado, 4 de outubro de 2014

.A primavera sempre restauradora.


Uma vez ouvi que amor só existe um,
fui levada,
na hora,
a acreditar,
depois neguei,
com todas as forças,
não nego mais.

Eu estava no aguardo. Esperei que a amoreira ficasse roxa, ficou, desgalhou, e te trouxe para perto. Para sujar o tênis, pintar os dedos, sorrir colorido.
Se Guimarães me permite, amor é o que vive na cabeça da gente.

LG

sábado, 26 de julho de 2014

.Escorria a noite.

A chuva agora. 
O gato lá fora. 
Que faz de cama,
o prato vazio. 
Quem sabe fosse, 
de pelo bom. 
Ganhava carinho. 
Vivia feliz.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Não é uma solidão pra baixo, nem triste, é uma solidão rica.

Eu sou uma pessoa muito interiorana ainda, muito solitária também. Sou quieta. Eu não gosto de muita gente, eu gosto de viver na minha casa, de ver meus amigos não com muita frequência, gosto porque gosto deles e de conversar, mais não sou uma pessoa de todo final de semana. Quem me conhece sabe, e não cobra presença. Eu posso ficar muito bem só, com as minhas coisas, minha casa, meus bichos, minhas músicas, meus livros. Por isso sempre estou envolvida com uma ou duas pessoas, no máximo, é um amigo e um familiar, ou um amor e um amigo, nada de muito. São meus discos, textos e coisas que gosto de trabalhar que são permanentes. Nada de viver em festas diárias, minha festa é meu silêncio, e meu silêncio não é triste. 

Lg

segunda-feira, 7 de julho de 2014

.Devaneio I.

"Ó, deuses! Aniquilem tudo menos espaço e tempo e tornem dois amantes felizes." 


Memórias de Martinus Scriblerus - 1713

domingo, 6 de julho de 2014

.Foi um encontro bem singular.

São difíceis as pessoas que dão a impressão de paz. Ela dava a impressão de muita paz, de primeiro tinha um ar assim sociável, amável, mas se você se aproximasse um pouco via logo que era diferente. A paz desnudava-se em mistério, e a sensação não era mais de convencimento, nem nada, era curiosidade adentro. De onde veio? E qual a fonte? Virava uma busca incansável pela verdade interna, por aquele descobrimento inebriante do outro. Ou até um auto-descobrir dos seus próprios limites. Você ia com ela até onde não pensou existir. Estranho e interessante. Quanto ao mistério ela sabia que possuía, não tenho nenhuma dúvida a respeito.

LG

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

.Do todo de dentro.

Volto empoeirada de vestígios, arvoredo de ouro
Do que fomos.
Volto como quem soma a vida inteira
A todos os outonos. Volto novíssima, incoerente
Cógnita
Como quem vê e escuta o cerne da semente
E da altura de dentro já lhe sabe o nome.

E reverdeço
No rosa de umas tangerinas
E nos azuis de todos os começos.

Hilda Hilst in AMAVISSE.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

.Com cadeiras na calçada.

Depois que demoliu a velha casa ficamos no aguardo de algo animado. Uma família com um cachorro. Crianças correndo com uma mangueira de água. Uma gata gorda pronta pra infestar os telhados. Esperamos, como oportunidade única, que surgisse uma dessas mães que faz bolo as três da tarde. Aquele vizinho bom para cuidar da churrasqueira. Foram semanas esperando. Cruzamos os dedos para que aquele casal ficasse e que ouvisse Beatles. Mas se foram, como muitos outros. E o terreno foi tomando um aspecto de nunca. Ninguém mais visitou. Nenhum interesse. Só aquela floresta que parecia brotar sem pausa. Era o esconderijo das noites de terror. Corríamos pra lá com uma lanterna, com as pilhas fortes, e um monte de reza na ponta da língua. Depois todos se espalhavam gritando, como se ouvissem algo, ou como se fosse necessário fazer aquilo para que o lugar ainda significasse. Quando ninguém mais esperava começaram a levantar outra casa, um casal jovial acompanhados de sogro e sogra, sem filhos ainda, mas com vontade de ter, confessou a vizinha. Sem cachorro, gato, ou passarinho que seja. Ouviam uma banda americana, com uma levada para o Rock, mas não era Beatles. E o sogro ouvia jazz em um aparelhinho de pilha, dai minha simpatia por ele. O fato foi que depois de tudo montado, quando havíamos guardado o rosto de cada um deles, começaram a encaixotar tudo de novo. Não deu tempo de ver filhos, cachorro, gato, passarinho, bolo, churrasco, nada. A casa se esvaziou, nenhum comprador jamais apareceu, e a floresta cresceu revigorada.


LG

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

.Silêncio.

Não me recordo bem dela. Creio que se demorou pouco em minha vida. Tinha escrúpulos em ocupar espaço alheio, receio de tornar-se incômoda. Pois a imagem que me ficou foi de uma criatura dócil e tímida, de poucas palavras.