domingo, 24 de novembro de 2013

.Glória a minha santa, que trouxe um amor gostoso, com fogo, só meu.



Mas isso não dói? Perguntei olhando a compulsão frenética com que ela retirava com a pinça os pelos, um a um, da virilha. Não. Respondeu rápida e convicta. Fiz que acreditei, mas a cada puxada uma gotícula de sangue saltava do ponto onde antes era um pelo. Você se incomoda? Não, respondi. Era uma noite de sábado, e lá fora aparentava guardar tanta coisa, tanto por esperar. Enquanto lá dentro, era isso. Uma luz forte, uma pinça inquieta, eu e meu whisky e a Janis cantando Mercedes benz. Confortável. Até poderia dizer que estava sexy o momento, totalmente sexy se não tivesse mais sentimento envolvido. Eu gostava dela com ou sem gotículas, ou loucuras sádicas de puxar, ela por ela mesmo, seus pelos. Era atrevido e envolvente. Terminado ela deixou apagar a luz, acendemos uma luminária, e para meu não espanto, continuamos cada uma em seu mundo, como se no não falar nos entendêssemos. Era assim as noites de sábado e a segunda no almoço, era tudo assim para ser bem realista. Não vai! Era sempre um pedir para ficar, para estar perto. Mesmo que o momento não fosse de total interação, estávamos perto e isso satisfazia. Alfred gostava dela de uma maneira inacreditável. Dizia: Senhora, ela é rosada, de tão branca. Tem o cabelo dourado, os passos leves, sorri, grita quando nervosa, é uma mulher com todos seus atributos. E eu ouvia com satisfação, era mesmo uma senhora. Não me largava mais, não por vontade própria. Eu a acorrentava a mim de maneira singular e ridícula. Não era necessário fingir que precisava dela ali, porque precisava mesmo. Ficava distante pouquíssimas horas no dia, o suficiente. E quando estávamos juntas era para criar contos como esse, sua presença não me devorava. Vice e versa. Não minava meu eu. Era para dar certo, como todos os outros, mas era significativamente diferente, ela era rosa. Branca como a palidez sempre desejada, e seus guardados, seus íntimos, mas rosa que a rosa que leva o nome. Era lindo, límpido e o necessário para dar a cara a tapa, para sofrer de amor depois, para superar qualquer pinçada nos pelos mais resistentes. Não era uma dor, era um alívio. Era dupla de As em uma mesa verde. Ela era um delírio. Era um trunfo. E gostava de comida japonesa, meu deus. Gemia, como poucas. Era sexy, envolvente, ROSA, alegre, disposta, meu deus. Foi quando apagou a luz forte, ligou uma luminária amarela, envelheceu todo o ambiente. Deu simetria a sala, aos livros e as almofadas xadrez que pareciam ter parado no tempo. De acordo com o jeito que se mexia, a camisa cortada por ela, revelava ora um seio ora outro. Era um alternar de imagens maravilhosamente iluminado. Foi encher o copo, era mais whisky, chegou me servindo e derramando tudo, como se não ligasse, mas ligava, e estava rosamente alterada. Derramava para limpar, eu bem sabia. Fazia incredulidades com a língua. Mais rosada! Eu me derretia nisso. Poderia fazer tudo que ela pedisse apenas pela cor, era um deleite incrível. Eu que não erguia a mão, amava, preste atenção nisso, amava, dar aqueles tapinhas que realçam um vermelho que está ali. E logo seu rosto branco corava, e ela ria. Outro gozo. E o apelido: monstra! Ela dizia: monstra, posso trocar a música? Até assim era doce, eu não era seu bem, sua vida, seu amor, eu era sua monstra. Era realista por demais. Um gozo. Já não dormíamos mais espaçosas, nos espremíamos, ligavamos o ar para compensar. Mas era um espremer sem fim. Eu daria a ela meu sobrenome, e tudo que ela pedisse. Estava, sem dúvida, morrendo de amor. Li o texto pra ela. Ela disse: muito bom. Não sei se por gentileza ou por estar seriamente alterada. Rosa.
Lg

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

.Quem vibrou nas minhas mãos não vai me largar assim.



Lembro muito bem que antigamente eu ligava, hoje não ligo mais. Se eles falam de mim que eu sou diferente, eu falo deles porque são iguais.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

.Parecia inofensiva mas te dominou.



Um amor assim delicado, você pega e despreza. Não devia ter despertado, ajoelha e não reza. Dessa coisa que mete medo, pela sua grandeza. Não sou o único culpado, disso eu tenho a certeza. Princesa, surpresa, você me arrasou! Serpente, nem sente que me envenenou? Senhora, e agora, me diga onde eu vou? Senhora, serpente, princesa. Um amor assim violento, quando torna-se mágoa. É o avesso de um sentimento, oceano sem água. Ondas, desejos de vingança. Nessa desnatureza. Batem forte sem esperança, contra a tua dureza. Princesa, surpresa, você me arrasou! Um amor assim delicado, nenhum homem daria. Talvez tenha sido pecado, apostar na alegria. Você pensa que eu tenho tudo, e vazio me deixa. E eu te grito esta queixa: Princesa, surpresa, você me arrasou, serpente, nem sente que me envenenou? Senhora, e agora, me diga onde eu vou?

.Uma mulher distinta e que já não é jovem.



Eu quero me esconder debaixo, dessa sua saia pra fugir do mundo. Pretendo também me embrenhar no emaranhado desses seus cabelos. Preciso transfundir teu sangue, pro meu coração, que é tão vagabundo. Me deixe te trazer num dengo, pra num cafuné fazer os meus apelos! Eu quero ser exorcizado, pela água benta desse olhar infindo. Que bom é ser fotografado, mas pelas retinas dos seus olhos lindos. Me deixe hipnotizado pra acabar de vez com essa disritmia.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

.Aquele texto imenso de Allen Ginsberg fica para depois.



A poesia está urgente,
lida sem ouvinte,
declamada nas quinas da casa,
encostada nas portas,
repousada na mesa.
A poesia está estranha,
ela serve, mais nada
ela conforta o nada
ela suporta o presente.
A poesia está dramática,
ela enfeita compassada
ela sugere o ardente
ela desperta tudo aquilo
ela envolve a caminhada.
A poesia está ousada,
foi entrando, quase nada
pegou lugar enfileirada,
na estante que se estende.
LG

terça-feira, 12 de novembro de 2013

.Se falam de mim porque sou diferente, eu falo deles porque são iguais.

Essa manhã, cabisbaixo, Alfred cruzou a porta. Pediu para ser readmitido. Contou-me vantagens, disse que aprendeu certos pratos exóticos pelos lugares que passou. Olhou ao redor, fitou a casa, e exclamou que eu precisava dele. – Veja essa estante, sem ordem!  Aquele armário, esses livros pelo chão. A cama desfeita. Olhe senhora! Passou o dedo pela mobilha e tirou uma camada fina de poeira. Olhei-o com tamanho contentamento, era tão irreal tê-lo na casa nova, mas logo me recompus, Alfred aqui? Nesse fim de mundo? Todo deslocado? Pedi que se justificasse, falasse melhor sobre o abandono, me explicasse por qual dona me trocou. Pedi com certo olhar de quem precisava compreender.  Alfred foi sincero, disse ter me abandonado por eu precisar daqueles momentos só, mas na seqüência me convenceu da minha necessidade em tê-lo por perto. Eu sinto falta, senhora. Sinto falta das conversas malucas no café, sinto falta dos seus malabarismos teóricos e de como pensa que eu entendo o que dizes, sinto falta daquelas loucas mulheres que cruzam essa porta e gargalham, falam alto, bebem e contam crônicas alucinantes. Puxei-o pelo braço, pedi a carteira, assinei. Alfred era meu como se nunca tivesse me deixado. Eu precisava daquele mordomo insensível ali, seja para o que for. Disse: - Passe um café, eu coloco a mesa, preciso te contar tudo. De como sou tentada diariamente, de como minha mente anda cheia e nada confusa, de como tudo isso aqui que você vê agora é meu e se foram os alugueis, os boletos. Preciso te contar das noites, Alfred querido, elas nunca mais tiveram o mesmo significado. Jantares, vinhos, espumantes, queijos, uma loucura amigo. E os corredores? Preciso de uma crônica só para te contar dos corredores daquele trabalho insano, da mulher encostada na porta.  Sente-se mais perto que preciso te contar da próxima viagem, do itinerário todo, da abelha-rainha que conheci, do trabalho, dos meus orientandos, da vida de solteira assumida, do coração nada vazio, do tudo que estou vivendo e não me escapa nada.

LG

terça-feira, 5 de novembro de 2013

.É quando o sol vai quebrando e a leitura revive.

Seus olhos ao invés de verdes 
deveriam ser vermelhos incandescentes. 
Na mão ao invés de uma rosa você deveria ter um tridente. Sua voz é tão suave quando deveria ser mais arrogante. Vadiando na minha cabeça, não me deixa um só instante. Mas eu vou lhe guardar, com a força de uma camisa, me despir do pavor lhe chamar de querida. 24 horas por dia, tentando o meu juízo, foi unanimemente eleita meu Demônio Colorido.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

.Segue minha senhora!


.Não poderia existir presente melhor de 26 anos.


.Nos despedimos felizes.

Deixei ela com o meu amor redobrado.
Não mexe comigo, que eu não ando só!

Ela: isso foi original.


Quando levou a mão ao rosto e sorriu do meu cochicho segurei para não chorar, era ela, rindo do meu pensamento.