segunda-feira, 21 de outubro de 2013

.É a cólera de saber que tudo me possui e ao mesmo tempo nada.



Sei que posso falar a noite inteira e esvaziar teus eternos conceitos, sei tudo o que tu és, veludosa e decente, redondez, FAMINTA DO MEU GESTO, sei, Hamat, que vais dizer que, se mudo de casa, mudo de natureza, e que é inútil querer o real do meu espaço de dentro, sei que vais dizer que eu, homem político, devo permanecer junto aos homens, abrir e fechar constantemente as mandíbulas, SEI QUASE TUDO DE TI, DE MIM SEI NADA, sei muito dessa palha que se chama aparência, sei nada dessa esquiva coisa estranha no meu ser de dentro.

HILST, H. Dentro de mim, “sagrado descontentamento”. In. Cascos e Caricias. São Paulo: Globo, p.127

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

.Perca um minuto, dois, o talvez.



Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem  alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo :  "Fui  eu ?"
Fernando Pessoa

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

.É um prato cheio para analistas.



Tenho certeza que contribui substancialmente para o enfarte dele. Fazer o que se ele não valia nada, que não mudaria e, de qualquer jeito, ele comeu a mulher do irmão. Peguei-os no ato. Esqueceu de terminar, deixou a coitada na cama, e foi se desculpar do impossível. Eu de Hamlet nessa história, veja que maluquice, eu toda poesia em torno de um sentimento cretino como esse. Sem ilusão, sem vítima. A meu favor, eu fiz, ou quis fazer, coisas iguais ou equivalentes, mas nunca professei os valores que ele vivia arrotando com cara de santa-puta arrependida. Nunca fui a epítome da hipocrisia. Era, ou desejava ser, misantropa. Hipócrita não. 

.É pouco.

    Sossega, coração, contudo! Dorme!
    O sossego não quer razão nem causa.
    Quer só a noite plácida e enorme,
    A grande, universal, solente pausa
    Antes que tudo em tudo se transforme.


terça-feira, 15 de outubro de 2013

.Desejei o primeiro brilho da manhã.

Paguei meu preço. 

sábado, 5 de outubro de 2013

.Minha comissão de frente, uma filha temporã.

 Que o mercúrio libere poesia
que a poesia enobreça a cor
e que a cor, de caligrafia,
que dela brote o que teremos

que escutemos o acorde do bemol
e que o bemol não venha com bequadro
que, ao anular, abate o girassol
cujo mercúrio nós seremos.

HC

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

.Só falta você estar.

Meu problema com a crítica - quando eu tinha uns 40, escrevi um romance. lá pelo quinto capítulo, Esteva passou por uma tempestade. o ar diminuía, o nível de água subia. ao fim do romance, tardiamente, percebi: a água subia à medida que Esteva mergulhava nela. a crítica nunca me perdoou por ter culpado a tempestade pela morte de Esteva. eu nunca perdoei a crítica por tal objeção.

HC

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

.A outra materializada.

Era como um carma sentado logo ali, a quatro metros dos meus olhos, e pensar que no começo não identifiquei o desconforto que aquela sala trazia. Era você, suas roupas, o modo de sentar, os tons do casaco, a pele e o batom. Pensei por um minuto em te enviar a foto, com o título, seu outro eu. Pois como se não bastasse as minhas lacunas sentimentais você aparecia ali, reencarnada, jovial, educada e aluna. Passei a evitar os cantos, lugares preferidos da cópia, desejei que reprovasse, que fosse embora para longe, que odiasse a matéria, mas não. Ela gostava. E se fazia presente em tudo. Era uma lamúria. Ficava depois do intervalo, me indagava as provas e os textos lidos, os não lidos e os por quês, queria ler todos e ler mais. Era um calvário. Foi quando confessei: você me lembra alguém. E ela sorriu, feliz, sem saber se poderia. Não era feliz, era pesado e sofrido e era a outra. Mesmo quando a mente esquecia os olhos lembravam a presença, era ela uma escuridão velada sem saber. E mesmo que o mal não se deseja a queria longe, a espera do dezembro, das férias, do nada, e da ausência. 

lG

.Quebre as louças, mas não mexa nos livros.




Apenas devaneios. Algo que fazia me lembrar Os Sofrimentos do Jovem Werther, talvez esse livro tenha viajado mais que eu, ou acabou em uma caçamba, estraçalhado, mas creio que não. Fato é que não voltou. Outro também, Memória das Minhas Putas Tristes, emprestei, nunca mais voltou. Era como uma sina, eles não voltavam. Aquele do Rousseau, Devaneios de um Caminhante Solitário, nunca mais vi a cor. E não sei até que ponto isso me incomoda. Fato que não gosto de fazer uso dos versos do Chico Buarque: “devolta o Neruda que você me tomou, e nunca leu”. Tomara que tenham lido, o Werther foi lido, certamente, porque a pessoa era uma leitora compulsiva, dessas que estão em falta, os outros não tenho a mínima garantia. Incrível que a vontade de reler se concentra nesses que você sabe que não está mais ao seu alcance. É como uma ironia. Lembrei deles hoje que fui arrumar a estante, uma tarefa por demais agradável, mas cansativa, como todas as outras. Ajuda se você sentir aquele cheiro de café, misturado ao cheiro do livro e um pouco de poeira, dá um ar intelectual ao ambiente, e a tarefa se torna mais prazerosa. Intelectual que se preze sempre precisa estar próximo a uma garrafa de café, uma estante e as traças. Encontrar uma traça perdida pela casa é uma medalha, sem traças, fique preocupado, você pode perder a fama. Ah se as pessoas andassem por ai trocando livros, seria como aquele filme Farenheit 451, fantástico, assista! Ou leia o livro se preferir... e se o costume se alastrasse ninguém escreveria textos reclamando os filhos desaparecidos, apenas bateria na casa do vizinho e saia de lá com as mãos cheias. Quanta ilusão.
LG