domingo, 29 de setembro de 2013

.Não há limites para a bestialidade.



Como sempre, como uma boa pessoa perturbada com a leitura, eu tinha o texto na cabeça. Era estranho como sempre foi, e mesmo muito tempo depois ainda havia certo desconforto antes de colocá-lo no papel. Era uma dessas conversas que se dividida com outra pessoa não teria como se expressar, precisava ser escrito, rasgado, jogado fora, por que não? As melhores coisas, dizem os gênios, devem ficar guardadas. Logo se nota que esse texto não está entre as melhores coisas, porque você está lendo. Mas não deixa de ser um texto perturbador, porque essa é a intenção. Passei alguns dias no café divagando sobre os rumos e caminhos da humanidade, e veja que as conclusões não foram nada boas. Mesmo nos monólogos, ou nos diálogos, não havia saída. Segundo dizem os especialistas o mal do século é a solidão, e, quanto mais estudo certo indivíduo adquire, mais solitário e individualizado ele se torna. Verdade. Veja que quando uma pessoa passa a compreender, ou julgar que compreende, muito sobre um assunto, ela se isola ou se torna incrivelmente seleta. Isso também é uma verdade. A seleção natural se dá na medida em que você passa a não ter graça para os outros, e ou outros não te atraem mais, dizem que o suicídio vem daí. Mas não entraremos nesse ponto. Dizem também que mestres, doutores, pós-doutores e afins, não se entregam ao matrimônio, ou que a parcela que se entrega é mínima frente aquela que “resolve” adotar um animal e por ai vai... verdade. Então perceba a trama complexa, quanto mais você caminha rumo as suas conquistas, e avança se qualificando, na busca de um indivíduo mais completo, mais você se afasta da sociedade que parece cultuar certas hipocrisias gritantes. Ai você vira aquele que a família não convida mais para as festas, pois tem medo de ouvir certas verdades. Aquele que os amigos não chamam mais para os “roles”, porque o role não te anima e você faz questão de deixar isso estampado no rosto. Aquele que tem a frase pronta para toda pergunta grosseira. Aquele que certamente já viu os filmes, já leu os livros, ou se não leu sabe da existência, e não é obrigado a entrar em discussões sobre a melhor dupla de sertanejo universitário. Pelo amor. Depois disso você passa a fingir que as coisas te interessam, e isso sim é difícil. Fingir interesse é uma arte, que quando você aprende a operar com seus instrumentais, pode se considerar salvo.
LG

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

.Sou igual a você, eu nasci pra você, eu não presto, eu não presto.



Tiu, não tem essa não de abstração. Escritor não é santo. O negócio é inventar amores, os caras querem ler um troço que os faça esquecer que são mortais e estrume. Continua: Tiu, com a tua mania de infinitude quem é que vai te ler? Aposto que serei o primeiro na vitrine e tu lá nos confins da livraria.
Hilda Hist

E por incrível que pareça é um espaço para esmaecer, esmaecer as línguas muito vivas da vida, em períodos de extrema liquidez. Era grande a Madame das minhas utopias. Era confuso ainda, mas era de frio na barriga e arrepios repentinos. Queria sempre depois dormir nos braços dela, mas querer dormir não era correto, era desperdício de tudo. Quando penso em dormir em seus braços coloco as mãos no quadril, estico o tronco e brado que estou em forma, que pode vir, que o sono passou. É quase que um jogo de corpos entregues. Mas era real? Era real a Madame dos meus dias? Eu digo para minha consciência: liquidez, língua e lago e tudo que lembrar o molhado das noites. Era real, metida em rendas e sedas, coxas marcadas pelas minhas mordidas, os ombros nu, era batom espalhado pelo rosto. Não era confuso enquanto se passava, mas na ausência o certo era questionar o real de tudo aquilo. Beijei-a tantas vezes que os lábios cresceram machucados, os de cima e os de baixo, lambia-a pelo pescoço, a língua nas orelhas, nas narinas...se pudesse lamberia o cristalino do olho, tamanho meu desejo. Senhora das minhas utopias. E eu sozinho na cama, as mãos dançando no ar, tocando o infinito como se procurasse o momento anterior. A Bela era real, mesmo quando estava ali na minha frente precisava tocar, confirmava e seguia os beijos, era real! Eu só sabia que vê-la de joelhos, enquanto passeava pelo corpo trêmulo, me inundava. Dizia: demore-se mais um pouco ali, ou aqui, e vinha aquela luz rosada que sai do nada e, quando menos espera, vira um clarão. É uma luz metafórica e indescritível. Olhar era tudo que precisava, ver o momento de encontro dela a luz e o meu descanso. Parado no instante, os olhos marejados com as sensações, recomeço, e aquela saia, o perfume, a fina postura, dava ares de outro século ao momento proibido. Era um deleite como descrevia Camões, uma ilha, um surto. Ela e seus echarpes de seda, que nunca os vi, mas os imagino envolto ao seu pescoço branco, destacando a boca rosada. Alguém dizendo sempre... calma, e se isso tudo passar, e o desconforto? Não pensava nisso um momento sequer. Era só luzes e paisagens à minha frente.
LG

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

.Abelha Rainha faz de mim instrumento do seu prazer.

Quando me pergunto se você existe mesmo amor...

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

.Escuta-me bem.



Todos nós necessitamos sofrer certo número de preocupações, de penas e misérias, da mesma maneira que um barco tem necessidade de lastro para conservar seu equilíbrio.

Colhi ramas floridas e pitangas, salvei da morte certo passarinho pelado, filhote despencado de uma árvore de flores amarelas, subi ao tronco e coloquei-o novamente no seu ninho, demorei-me no atalho de formigas e ajudei uma gorda ruivosa a carregar sua folha segurando de leve a ponta esverdeada, ai, deve ter pensado a pobrezinha que por um tempo a folha fez-se leve, e não continuei muito tempo a ajudá-la porque pensei quanto mais leve agora, depois no seguir do caminho e sem mim, ai, muito mais pesada.
Tu não te moves de Ti.

domingo, 1 de setembro de 2013

.Ensaios sobre os cuidados da vida.



Um breve relato da passagem para o não sei. Hoje quando fui obrigada a me despedir de um amigo para o nunca mais, fiquei me questionando o quanto perdi, ou ganhei, de não ter ficado próximo e me permitido acompanhar os desdobramentos da vida daqueles que passaram pela minha vida. Morar fora pode ter suas vantagens. Veja que o texto não será fácil. Pois bem, em velório de um amigo e companheiro de cervejas, bem nascido, culturalmente diferenciado, viajado o suficiente, com um bom emprego e, como muitos, infeliz com alguma coisa, parei para pensar nas mortes que a ditadura da beleza oferece aos descontentes, pois teria sido esse o principal motivo da sua partida. Como socióloga que sou, de formação, não sei se de competência, parei para comentar com outros amigos, vivos, que o fato principal que levou o amigo, agora morto, era a ditadura estética, que insiste, o tempo todo, que ele estava acima do peso e necessitava reduzir seu estômago. Pois estava lá o amigo morto, verde, costurado por dentro, com toda a sua inteligência e sagacidade sacrificadas. Como a maioria dos meus amigos, esse também era gay, e busquei entender ali o afastamento do parceiro do corpo velado, o choro quase que desesperador do pai e a feição desamparo da mãe. Horrível como todo velório, doloroso como toda partida. Mas o parceiro ali afastado, não por vontade própria, me causou uma comoção gigantesca e me fez, depois de 14 horas, escrever isso aqui. A vida se resume a isso? No caso do amigo, a morrer por um sonho que, às vezes, se modela pelo comportamento dos outros, na busca por um tipo de beleza aceita e julgada normal? No caso do parceiro, a se despedir à distância daquele que acordava ao seu lado, para evitar que a mesma sociedade doente, que levou seu companheiro, o julgue ainda mais? Diria eu que a vida se resume ao incompreensível, e os laços humanos se resumem as aparências, uma pena, como sempre.
LG

domingo, 25 de agosto de 2013

.Desejei ser aquele papel que subiu tão alto.

 



Enquanto andava sozinho naquela terra pouco pisada pelos homens, entre o curral, no meio das vacas, falava alto coisas que saídas da boca soavam sem sentido, mas que na sua cabeça formava uma reflexão orgânica. Trazia o ouvido limpo e os olhos frescos enquanto corria a mão nos pelos dos animais, sempre repetindo: por que o mundo me comove tanto? Sofria as dores de muitas coisas ao mesmo tempo, coisas que nem eram dele, coisas do de fora. E agradecia, internamente, por estar entre os animais. Era um alívio. Os homens trazem julgo pesado, quase sempre. Com os animais era apenas um mugido constante. Teria se embrutecido?  Olhava os olhos dos animais, era aquele profundo, e quando olhava os olhos dos homens pensava conjecturas, sempre para o ruim. O homem era um abismo, um abismo tão sombrio que devorava. Passou a se questionar se tinha necessidade disso. Por que não viver fitando os olhos dos animais, trocando pequenas carícias, alisando seus pelos, em uma atividade não-destrutiva? E era assim que via o homem, destrutivo? Talvez. Chegava a pensar que sua própria pele te atrapalhava: se eu arrancasse toda e oferecesse ao outro, despisse meu ser de fora e oferecesse o ser de dentro, poderia me aproximar? Poderia me oferecer sem amarras, sem todos os desenhos da pele que intensificavam os abismos, mas não conseguiria. Era sim um embrutecer, estava desejando o convívio com os irracionais. Deveria se despir, mas como?  

LG

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

.Outros que contem passo por passo, eu morro ontem, nasço amanhã, ando onde há espaço.

Já havia esquecido o sentimento reconfortante da primeira semana de trabalho, é quase como um cansaço prazeroso. Depois, é claro, como todas as outras coisas, a rotina acaba por tornar o trabalho insuportável, e, no segundo mês, você deseja férias. Mas o começo, Ah! O começo tem um quê de reconhecimento com merecimento... Hoje de manhã, na sala dos professores, uma fila se formava frente a garrafa de café. Desisti do café e resolvi sentar ao lado de um senhor de cabelos brancos. Observei que ele conversava com a colega de profissão sobre Fernando Pessoa. Fiquei mais atenda. De repente ele solta, sabe aquele poema, "o poeta é um fingidor, finge tão completamente..." Parou, passou os dedos entre os cabelos brancos, olhou desapontado para a moça (que não ajudou), e disse: esqueci o resto. Começaram a rir, e no fim da risada eu disse: "que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente". Ele me olhou, a outra professora também, e foi assim que esse lugar, depois de hoje, se tornou menos hostil. Junto com o novo amigo grisalho veio um livro de sua autoria, poemas! Amanhã apresento um por aqui. E, como dizia Hilda Hilst, "não sabemos o dia de amanhã Hilé, talvez o amanhã demora para ser, recolha seus cacos que a mesa precisa do vazo". Segui pensando as deixas de Pessoa e Hilst, pensando na vida que segue revezando cascos e carícias.