domingo, 18 de agosto de 2013

.Notícias do quase além.



Eis que surge, aparece do nada, a doida. Que doida? Mas a doida não capotou, se quebrou toda e morreu? Não é que não morreu, menina! Ta firme e forte. Vai ser necessário pagar uma mandinga mais brava pra enterrar a doida.

Pois bem, apenas agora, com a casa, a cabeça e os ossos nos seus devidos lugares, ou quase, é que dá para produzir alguma coisa. Para que tudo aparente estar no lugar, e se torne possível – se é possível – é só dar tempo de procurar uma tomada, ligar o DVD, a TV, procurar a Bethânia e escutar uma frase, pronto, parece que os móveis se encaixam, dá unidade, vira um lar, e tudo dói um pouco menos. A dessa vez foi: “e se alguém interessa saber, sou bem feliz assim, muito mais do que quem já falou, ou vai falar de mim”. Foi isso. Parece que a frase vai ser de grande valia e terei que usá-la inúmeras vezes com os curiosos, uma vez que a morada volta a ser a pequena e pacata cidade do interior paulista, onde têm pessoas regradas que vão à igreja de domingo. Nada mais covarde do que escolher uma casa do lado dos pais e da irmã, para morar cercada, como se fosse precisar deles a qualquer momento, ou, caso precisasse já estivesse tudo ali, logo ali. É bom deixar esse tema para depois, quando tudo estiver realmente no seu lugar. Boa missa!
LG

sexta-feira, 26 de julho de 2013

.Ernest Becker, A negação da morte.



Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura. Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Louco porque tudo o que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura - loucura assumida, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura. 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

.Às vezes um passo pra frente te joga com força de volta ao início.


Às vezes eu pensava que a vida não tinha o menor sentido, mas logo depois não pensava mais porque a gente nem sabia pensar, e não dava tempo de ficar pensando no que a gente nem sabia. O melhor era seguir descontente, até onde dava. 

quarta-feira, 17 de julho de 2013

.Nem tudo é cíclico.

Amanhã é mais um dia de muita importância. Obrigado aos que ouviram as lamurias e ajudaram como puderam. E aqueles que não estiveram presente, por opção, também segue meu muito obrigada pela indiferença. E vamos seguindo...

.Eu ficava ali.


Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado.  

terça-feira, 16 de julho de 2013

.De um pobre e solitário doente do espírito.



O dia passara como normalmente passam os dias: eu o havia desperdiçado, dissipado suavemente, com minha primitiva e arredia maneira de ser; trabalhara algumas horas a compulsar velhos livros e sentira dores durante duas horas seguidas, como os velhos costumam sentir; engolira uns pós e me alegrara porque as dores se haviam deixado enganar; metera-me num banho quente e absorvera o agradável calor; recebera três vezes o correio e correra a vista pelas cartas e os impressos sem importância; fizera meus exercícios respiratórios, mas achara conveniente transferir para outro dia os exercícios mentais; dera um passeio de uma hora e vira, recortados contra o céu, delicadas e belas amostras de folhas preciosos. Agradável, assim como ler os livros antigos ou demorar-me no banho quente, mas, afinal de contas, não fora a bem dizer um dia encantador, nem brilhante, nem feliz, nem plácido, mas normais, moderadamente agradáveis.

                                          Herman Hesse


.O amor neutro.


 O neutro soprava. Eu estava atingindo o que havia procurado a vida toda: aquilo que é a identidade mais última e que eu havia chamado de inexpressivo. Fora isso o que sempre estivera nos meus olhos no retrato: uma alegria inexpressiva, um prazer que não sabe que é prazer - um prazer delicado demais para a minha grossa humanidade que sempre fora feita de conceitos grossos. 

domingo, 14 de julho de 2013

.No momento preferia ser uma barata.


Onde, reduzidos a pequenos chacais, nós nos comemos em riso. Em riso de dor - e livres. O mistério do destino humano é que somos fatais, mas temos a liberdade de cumprir ou não o nosso fatal: de nós depende realizarmos o nosso destino. Enquanto que os seres inumanos, como a barata, realizam o próprio ciclo completo, sem nunca errar porque eles não escolhem. Mas de mim depende eu vir livremente a ser o que fatalmente sou. Sou dona de minha fatalidade e, se eu decidir não cumpri-la, ficarei fora de minha natureza especificamente viva. Mas se eu cumprir meu núcleo neutro e vivo, então, dentro de minha espécie, estarei sendo especificamente humana. 

                                                                                A paixão segundo G.H

quinta-feira, 11 de julho de 2013

.Confesso-lhe que fiquei de boca aberta, não que entendesse a proposta, ao contrário; nem a entendi nem a achei limpa, e foi por isso mesmo que fiquei de boca aberta.


Parecia que era assim tudo mentira, daquelas para se recordar depois, no pré-sonho. Não era! Isso trazia um gozo reconfortante. Era verdade! E parece que a necessidade de afirmar e (re)afirmar a verdade se dava no descrédito da própria participação. Imagine só. E justo no período mais monótono. Mas que participação! Era quase que uma pintura toda aquela nudez.  

LG

.Era mais um desses segredos.

Não digo o que se passou na sala secreta; além de ser secreto o que lá se passou, não interessa ao caso particular, que era melhor ficasse também calado, confesso.
Joaquim Maria Machado de Assis

quarta-feira, 5 de junho de 2013

.Como se um fio de cheiro urgente o tivesse chamado de longe.



O cão quando passou pelo pescador, ia a trote direito e de focinho baixo a murmurar. Levava destino, isso se via. Logo adiante apressou o passo, entrou em corrida e perdeu-se nas dunas. Porém não tardou a aparecer, desta vez esgalgado no cume das areias a uivar para os fumos que vinham do oceano. Isto, bem entendido, intrigou o pescador que pelo sim e pelo não se dirigiu às arribas, sem que o animal interrompesse um só instante o seu apelo ou o olhasse sequer. E o pescador, subindo sempre, foi-se chegando a ele e já muito próximo parou e viu:
Viu no fundo de uma cova uma conspiração de cães à volta do cadáver dum homem; alguns saltaram para o lado assim que ele apareceu, mas logo retomaram a presa; outros, nem isso, estavam tão apostados na sua tarefa que se abocanhavam entre eles por cima do corpo do morto. Há aqui uma certa ironia, segundo consta, a vítima gostava desvairadamente de cães. 

PIRES, José Cardoso. Balada da Praia dos Cães. RJ: Bertrand Brasil, 2009. (p.36)
______________________________________________________________
“A Balada dos Cães” conta os desdobramentos do medo, a disciplina da morte, e os crimes políticos. Onde os cães-policiais medalhados, cães perseguidores, cães que estão sempre à espreita, cães que farejam desespero, são alegoricamente inseridos no romance como representantes à serviço do poder.