terça-feira, 4 de setembro de 2012

.O sapato que todo mundo gostou, mas ninguém viu.



Sem lamentações, mas ninguém viu! Pelo adiantado da hora soube que precisava, dentre outras coisas, acabar com as lamentações, pegar uma taça de vinho e descer as escadas para a sala da escrita. Uma máquina velha, um cheiro de traça empoeirada, aqueles quadros desbotados, a lareira sem fogo, mesmo que o fogo talvez nunca se apagasse. Os dois instrumentos sem corda, o piano desafinado, o velho violino vendido, quantas perdas! A lareira sem fogo. Sem desesperos. Os curativos vão tapando as lacunas. Compra-se coisas novas, sapatos, jóias, uma pintura moderna, um computador. Mas hoje era dia de barulho e da poeira sendo expulsa das letras da velha máquina. Até a janela trepidava pelo vento. O fogo enlatado, o grito contido, o gemido abafado, o desejo banido, as carícias adiadas. Era dia de expulsar. Quanta bebida, quanto fogo, quantas linhas. Na hora de escrever é preciso matar o desejo de alegrar o olhar com as palavras, do contrário é tudo mentira. Como se fosse necessário dissertar sobre o que é e o que não é preciso fazer. Como se fosse ansiedade, e não outra palavra a correta. Como se realmente desejo viesse depois, ou tudo junto, ou aquilo que não se explica. Como esse barulho dos dedos nas teclas, para lembrar o esforço humano em produzir e reproduzir carícias. Como se eu fosse professora de algo, e não o contrário.
LG

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

.Um texto matinal.



Alfred ficou furioso, vai de um lado para o outro da casa pisando fundo. Vomitei nele o problema da farsa pela manhã, enquanto eu comia meu pão torrado na sua presença, e aproveitei para alertar sobre Zeta. Não entendeu o problema da farsa, não quer entender, mas está com um dilema pior. O que fazer quando ele nada pode fazer por Zeta? É certo que anda nutrindo sentimento por ela, chegou até a se confessar dia desses. Mas não há nada para ser feito, logo agora que vou jogá-la em um armário empoeirado. Só para contexto, Zeta é uma boneca inflável, dessas que vemos na tv, que, até hoje, compunha a decoração dessa casa. Zeta toma o canto esquerdo do sofá, e dá a sala de estar um tom agradável entre a decoração demode e a neo-contemporânea. Ganhei de presente. Nome de batismo: Catherine Zeta-Jones. Para os íntimos: Zeta. São bons os trocadilhos com seu apelido depois das festas, quando todos se embriagam e vão se engraçar com a musa plástica. Me cansei dela, não gosto mais do tom que assumiu o plástico, aparenta sujeira. Por mais que ela é, sem dúvida, o que Alfred mais limpa. Zeta também ganhou as lentes da minha musa, talvez por isso ela não tenha mergulhado no lixo tão cedo. Dá um tom caótico as fotografias, uma mistura safada-inumana. Agora que o acordo entre as senhoras do lar foi fechado pelo aniquilamento da boneca, só resta comunicar o mordomo. Além do mais, Alfred anda muito cheio de permissões e excessos. Saio de casa e olho em tom de despedida para a mulher-moderna de batom vermelho sentada no meu sofá, encaro Alfred como se dissesse: dê fim nela até o almoço! Saio, e enquanto fecho a porta escuto o copo da louça do café da manhã se despedaçar na cozinha, como um coração.

LG

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Então é hora de falar da farsa?



Respondendo a demandas alheias. Farsa, como tudo aquilo que camufla a verdade. Teria descoberto que eu não comprei uma bicicleta? Ou que até tenho pensado em fazer, mas o tempo, aquele que nos esmaga, tem vencido essa batalha. Pelo menos tenho um leitor atento, então a farsa se sustenta e se justifica. Estamos com problemas metodológicos? Resolveria discursar sobre a hermenêutica em profundidade e Heidegger, aquele cretino, que só nos confunde a cabeça? Poeta, romancista, filósofo, quantas pessoas vazias, com definições tolas e imitações baratas de leituras parciais da vida, que corre lá fora e que se permitem morrer sem ver, só escrevendo, na torre encantada. Ideias, estilo, expressão, compreensão, serve pra quem? Que grande farsa. Que bestializados geniais. Quantos calhordas encantados. Pois, enquanto estamos tentando roubar o lugar de algum deles, é legítimo que os desqualifiquemos. Farsantes! Beatas, carolas, papa-missas. No plural para não ser cópia fiel de Machado. 

Quanta vida humana,
quanta natureza lá fora,
quanto pó e traça aqui dentro.
Que lógica espantosa essa da farsa.  
Que crescente descontrole poético, sem espasmos.
Que violento esforço para superar a beleza da verdade lá fora.
LG

terça-feira, 28 de agosto de 2012

.Comprei uma bicicleta, isso justifica a ausência.



Depois de muito pedalar por ai é fácil observar que a natureza torna bastante dura a vida daqueles de quem deseja extrair grandes coisas. Nunca me sai bem em nenhum exercício de agilidade e força. Também, de acordo com meu talento, nunca estive para cálculos e engenharias. De estatura na média, não sou dessas pessoas que em um grupo desperta o olhar dos observadores. Não que fosse feia, mas nada além, nada impressionante. O segredo estava na conversa mesmo, na busca do belo absoluto pelos temas. Nesse ponto era um conjunto agradável e harmonioso. Para se fazer ouvir é necessário maneiras polidas e um certo ar de segurança. A conversa deve ser essencialmente instrutiva. Com mais pedaladas acabei por observar que diante de muitas pessoas falava quase sozinha. Tinha muito a dizer. Por isso era exigente na escolha dos ouvintes. 

LG
 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

.Façamos outro baile.

Alfred arrumará todas as coisas. E esse texto só sairá depois.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

.Quanto escândalo.


Roubaram os escrúpulos dela. Roubaram nada, ela vendeu! Quanta confusão por uma notícia, uma imagem, um filme. Pra que tanto alarme? Pra que falar de escrúpulo? É uma semana feliz! Todo mundo se realizando, todos se escandalizando. Ai que delicia. Ta todo mundo confuso. Todo mundo pelado, a cachorrada está rolando solta. No sentido safado do termo. Cai aqui. Foi quando sai depois do almoço dos dias dos pais, ao lado do meu, e falei para o vizinho: feliz dia dos pais. E ele disse: pra você também. Ta todo mundo rindo. Estão rindo lá em casa ainda. Eu viajei vários quilômetros e ainda ouço a risada deles. Gosto tanto. Da risada. Deles também. E da pequenina, e do menininho. Ai, estão todos em mim, e eu estou neles. E a terra continua louca. O cinema, a poltrona, ficou tudo tão pequeno pra ela, e era tudo tão especial pra mim. Ai que delicia. É uma semana feliz. Ta todo mundo rindo. Todo mundo gozando. O povo ta rico. E eu comprei um belo de um whisky. Posso ser pai agora. Um pai cowboy. Tem um cientista social na TV, e aquele filme bom: Desejo e Reparação. Muito bom. Difícil escolha. Só não entendo porque não tiram a reparação dali e ficam só com o desejo. Bem melhor. É uma semana feliz. Eu sei que é. Boa noite.
LG