quinta-feira, 21 de junho de 2012

.Esperem.


Há certas coisas que eu preferiria calar. Há outras que eu preferiria dizer. Agora não sei se digo as coisas que preferiria calar ou se calo as coisas que preferiria dizer. Preferiria calar, mas vou dizer que é preciso descobrir o tempo. Se descobrirem o tempo vão ver que as coisas de fora e as coisas de dentro ficam transitáveis. 

HH. Fluxo-Floema. p.38.

terça-feira, 19 de junho de 2012

.Dos buracos do de dentro, de como tenho esperado que a outra chegue. Não essa. Que se dispa. Não que se comunique.


É tudo recurso. Era uma questão de tempo. Você pediu o texto, e eu escrevi. Só foi a menina entrar no apartamento, sentar ao lado da cama, e começar a confessar suas estórias insignificantes, para que o texto saísse. Fingi que ouvia, a queria longe, mas sabia que era uma questão de tempo, que logo sentaria ao lado e sentiria a outra metade do colchão amassar. Não demonstrar interesse não é uma questão de tempo, é uma questão de estratégia. Que ridículo isso. Apague tudo e comece novamente. Ridículo foi aquela outra contar, a outra do Brennand, que foi ver a largada e se emocionou. Contou que se emocionou? Não. Mas deve ter se emocionado. E o que era mesmo que a menina na cama falava? Falava de assimetrias sei lá do que. Falou que cheirou tanta droga que agora os dentes estavam gastos. Falou que ficou tão magra que o frio se tornou insuportável. Falou que gostaria de ser outra, mas continuava sendo. A respeito do. De acordo com. Era tudo mistura. Era recurso. Ia falar outra coisa, mas essa louca me entra quarto adentro. Mandou tirar a música, disse para não fingir inteligência, jogou os livros pela janela, quebrou os quadros, sentou no sofá e ligou a TV. Queria ser inútil como a vida toda e ela mesma. E agora fico eu obrigada a sentar no colchão, enquanto aquela me toma o sofá e me bebe todo o café. Petulante. Se ao menos me bebesse. Porcaria de livros e cacos, porcaria de buracos que deixamos abrir. Não era para ser um texto bonito, não era para ser esse. Era para escrever dos buracos, e como eles se deixam abrir.
LG

domingo, 17 de junho de 2012

Oh, poupem-me. Não, não me poupem.


Vi que você e eu subíamos a colina. que colina? Uma colina que vi na minha visão. Ruisis, por favor, não diga que a subida era íngreme. Posso não dizer que era íngreme, mas a subida era difícil de subir. Adiante, adiante, Ruisis, eu estou ficando impaciente. Os arreios eram de couro aveludado. Os arreios de quem? Dos cavalos. As selas eram de prata delicada. As selas de quem? Do cavalo. Oh, Ruisis, por que você não diz de uma vez que estamos a cavalo e pronto?

sábado, 16 de junho de 2012

.Do NADA.


Bonito isso. Essa coisa de subir a colina a cavalo, escuta, era de noite ou de dia? Eram planos. Chegamos ao cume. Não saímos de casa. Era manhã. O ar tinha certos cheiros. Concentre-se, isso me interessa, que cheiros exatamente? Oh, mulher, conte os cheiros que havia. Se eu soubesse que cheiros eram eu não teria dito certos. As sutilezas da língua. Então aproveite e fale do seu de dentro, porque assim como você vem fazendo a coisa vai se perder. O meu de dentro é turvo, o meu de dentro quer se contar inteiro, quer dizer que nos juntamos aqui por algum propósito, acho que seremos alguém, não podemos estar aqui por nada. Nem eu as colocaria aqui por nada, entende? Tu mesmo, seria tão simples te definir. Ou não te defino? 
Hilst, H. Fluxo-Floema. SP: Globo, 2003. (p.37)

terça-feira, 12 de junho de 2012

.Ela presente.

Receita curta e boa: ser fiel e ser companheira.

.Bem pertinho de mim.



Quero ver a água do mar
Lambendo você nos seus pés
Você vai me despertar
Um apetite de mil caetés
Deixa essa chama queimar

.Nota.


Ingênua de vestido assusta!