quinta-feira, 17 de maio de 2012

.Fecho a porta de aço do meu escritório-quarto.


Eu digo: pare;
Ela diz: você é anti-social, é burguesinho besta.

Muito bem, abro a braguilha e começo a me masturbar. Ninguém se mexe. Sorriem obliquamente. Guardo a coisa. Levanto-me. Grito: bando de inúteis, corja porca, até que inventei uma bela sonoridade, muito bem, corja porca, mas essa gente não percebe nada, eu poderia ter dito creme de leite, caju, caguei, anu, são uns analfabetos, uns instrujões, uns estrujões, uns estru, os corjaporcagueicajuanu.

HISLT, H. Fluxo-Floema. São Paulo: Globo, 2003.

domingo, 6 de maio de 2012

.Badalada estranha.


Se fosse bom não chegaria, mas o oco dos dias atravessou estados e Estados, quebrou cercas, voou rios e estacionou ai. Por mais que corra, ou cave ou crie estratégias o oco não sai, a saudade também não, “por mais que se mova o trem, tu não te moves de ti”, ela já disse. Oco-companhia. Aquele vazio parente, espaço nada, tarde igual, domingo cansado, escrita repetida, diálogo curto, cidade mesma. !Se ao menos a criança chorasse. Fotografias para revelar. Esperança velada, resquício morno, felicidade moderna. Oco-companhia. De você nada, palavras e correrias. Polidez, por fim.
LG

quinta-feira, 3 de maio de 2012

.Olhos de lince e dois metros de altura.


Sugeriram-me que a lua de mel tivesse como cenário Salvador, retruquei, de primeira. Não se passa lua de nada em Salvador, se passa sol, calor, agitação, mas lua, Amor? Lua, não! Nunca pensei que usaria esse recurso ridículo, aumentativo desnecessário. Não gosto. Tenho tido facilidade de expressar sem delongas e rodeios o que não gosto. Tudo parece mais leve, verdadeiramente nítido, como se as palavras que faltavam (ainda faltam), mas não machucam a-Verdade, vão saindo aos poucos. Vou amontoando citações e compensando a demora, estive ausente de inspirações e impulsos. Como outra viagem. Bethânia e Hilst de mãos dadas, acompanhando o novo que se agiganta. Necessito de tantos espaços em branco para contar parte das lembranças recentes, da grande metamorfose, na área ativada da memória que precisei ajustar. De como Deus virou confidente, palpável, sorridente. De como Beckett ganhou minhas lentes. De como as lentes engrossaram e as armações ficaram mais sérias. Do modo como nunca mais ouvirei Manuel Bandeira sem querer chorar, ou sorrir, ou relatar um acontecido. Da cromoterapia que me submeti. Do seu olhar certeiro, das suas mãos quentes, dos seus seios-moldura. 

LG

.Passando de um espaço aberto, para um fechado. Ou seu avesso.


Tudo se esfuma. Mais um pouco e você fica cego. Está na cabeça. Ela não funciona mais, ela diz.

Eu não funciono mais. Você fica mudo também e os ruídos enfraquecem. Mal se atravessa o limiar é assim. É a cabeça que deve estar cheia. De modo que você diz a si mesmo: chegarei bem desta vez, depois mais uma, depois será tudo. É difícil formular este pensamento, pois é um pensamento, num certo sentido.
Samuel BeckeTT

.Maravilhoso Sórdido.




E se tiver um dia de procurar um sentido para a minha vida, nunca se sabe, é desse lado que vou arriscar primeiro, do lado dessa pobre puta desviada e de mim mesmo último da minha raça infame. Será essa a minha viagem. 

Samuel Beckett

.Cada palabra es como una innecesaria mancha en el silencio.