quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

.Retardos de realidade.

Eu crio tantas personagens em mim, tantas estórias de encontros, conquistas e despedidas dolorosas, algumas fáceis de sair, outras nem tanto, que às vezes penso ser uma eterna mentira vivendo. Vida de personagem construída com cuidado e mais atraente na ficção, talvez por isso tenha dormido tanto. Talvez para efeito de oposição e para me livrar tenha recorrido tanto ao café. Talvez e tanto. Depois enjoada do cheiro e percebendo que de tão enjoada começa a percorrer aquela náusea descubro que o enjôo é real. Geralmente é isso, vivendo no real padecemos de náusea crônica.


LG

.Não se assuste é apenas overdose.

Então abracei-a nuns soluços altos, mãe, vou morrer de pura e de cansante mágoa, nesta terra não há felicidade, sei que não fui boa quando ainda menina, nem depois e nem o sou agora mas tenho no de dentro tanto amor por esse que chegou à casa, se o tomam de mim anoiteço como a noite de sempre no comprido poço, hei de ser eternamente meia-noite, buraco no fim de uma pedra num confim de abismo, e deslizei colada ao seu corpo, corpo de mãe querido. Aquieta-te, pois quem o tomaria?


Hilst, H. Tu não te moves de Ti. SP: Globo, 2004. (p.105)

.Condoída das minhas noites sem ninguém.

Então larguei as ramas e as pitangas e fulva que agachei raspando o chão, atirei-lhes punhados de terra e chorei alagada, muito, tanto como se fosse entregar a alma ao Soberno.



Hilst, H. Tu não te moves de Ti. SP: Globo, 2004. (p.101)

.Pense em si mesma e procure a verdade junto aos seus.

Pequeno estrago de cabelos cortados que depois crescerão, coisa de nada. Segui pensando nela. Depois vi um filhote despencado de uma árvore de flores amarelas, subi ao tronco e coloquei-o novo no seu ninho, demorei-me no atalho de formigas e ajudei uma gorda ruivosa a carregar sua folha segurando de leve a ponta esverdeada, ai, deve ter pensado a pobrezinha que por um tempo a folha fez-se leve, e não continuei muito tempo a ajudá-la porque pensei quanto mais leve agora, depois no seguir do caminho e sem mim, ai, muito mais pesada.



Senti-me viva e generosa e boa, quase sacramentada, quase santa...


Hilst, H. Tu não te moves de Ti. SP: Globo, 2004. (p.98)

.Gertrude Stein, procure!



Um gênio é um gênio, mesmo quando nada faz.

.Faço-te o enorme presente deste aviso: ama somente o que te é parecido.

Tu é que pensas os loucos à tua maneira, à maneira de todos, coragem é o que nasce no fundo do que somos, loucos porque muito longe, lá no bulbo da coisa já sabemos se o que vem há de ter ligeireza de rato, canino de roedor, visão de olhos muito valiosa ou cegueira do pó que caminha conforme o vento manda, louco Maria, são os poucos que lutam corpo a corpo com o Grande Louco lá de cima, irmão de muita valorosidade e de peito vingante, às vezes tem sisudezas de aparência mas cavado recolhe-se e troveja antes de começar luta de coice.


Hilst, H. Tu não te moves de Ti. SP: Globo, 2004. (p.94)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

.Aqueles habitantes da terrível cidade apontaram-me um dedo.

De clima em clima andei sem nunca saber onde pousar o pesado fardo que carreguei de conhecimentos, até que tanto ver e conhecer, andar e andar, pergunta que pergunta a cada assento, a cada pedra, de depois a tantos homens que não responderam, habituaram-me a contestar sozinho, a responder-me sem ter falado: a conversar com ninguém e divertir-me.


NERUDA, P. Plenos Poderes. Lisboa: Dom Quixote. 1977 (p.125)

.Não me pus a chorar nem a dormir.

Não é por querer deixar alguém nem aos outros, nem a ti, e se escutares com atenção, na chuva, poderás ouvir que vou e venho e me demoro. E sabes que devo partir. Se não se entendem as minhas palavras não julgues que sou o que outrora fui. Não há silêncio que não se acabe. Quando chegar o momento, espera-me, e que saibam todos que saio à rua com o meu violino.



NERUDA, P. Plenos Poderes. Lisboa: Dom Quixote. 1977 (p.87)

.Estou tão sem imagem.

Não consigo dormir. Tem uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse diria a ela que fosse embora; mas tem uma mulher atravessada em minha garganta.


GALEANO. A. Mulheres. L&PM, Porto Alegre: 2011 (p.28)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

.Resolvido, façamos um baile.

É hora de escrever sobre essa sensibilidade aflorada, curtida em dias de repouso. Cultivo do silêncio. Espaço inatingível. Escreve-se para colocar para fora tudo aquilo que o tempo fez calar. Escreve-se para dialogar com você, depois que o estranhamento passou e agora sobraram nossas reflexões desordenadas. Para guardar aquele respirar junto à xícara de café que se escreve. Para emoldurar o seu olhar. Sua liquidez. Escreve-se porque não tenho você agora, caso contrário estaria aproveitando meu tempo em passeios pelo seu corpo. Escrevo para que você suspire e para que saiba usar as mãos que te empresto. Para que ecoem nos meus ouvidos seus momentos intermináveis. Escrevo para que me sintas do outro lado. Quem sabe entre suas curvas. Preciso tanto desse agitar que me causa, dessa tranqüilidade da procura que me proporciona, desse inventar árduo de situações, preciso tanto. E agora que te tenho e que chegarás em breve, volto a precisar da sua liquidez na minha cama. Da tua boca colada a minha boca. Da sua respiração descompassada. Volto a precisar das suas mãos que emprestei a ti.

LG


domingo, 22 de janeiro de 2012

.Da ingenuidade.

Pelo contra-movimento do facebook e para os colegas que perdi. Uma coisa é fato, não podem me acusar de apatia. Tenham uma boa vida cheia de provérbios e frases enfeitadas, fotos de amigos rolando na grama e brincando com cachorros, crianças com bonecas lindas e homenagens a deus. Mas, para o bem de vocês, não demorem para retirar o tapa olho. Meus sentimentos e boa missa.



Eu tenho vergonha dos meus colegas contemporâneos. Gostaria de expressar minha indignação. Quando se posta ou compartilha um link sobre problemas reais, atuais e que necessitam de intervenção humana, não se vê repercussão alguma. Quando são colocadas fotos tristes sobre o nazismo ou fome na zâmbia, todos compartilham, se lamentam por não viver naquele tempo e ter lutado contra a repressão (isso dá um certo envolvimento com a “humanidade”. Por que se lamentam do ocorrido? Seria por preguiça de se envolver no atual? Sabe-se lá! Se todos soubéssemos o poder dessas redes sociais que de social não tem nada e de inclusão menos ainda. Se todos deixarem de ser, por um minutos, narcisos dentro das suas torres talvez o massacre de Pinheiros teria um fim com menos sangue. Despolitizar os jovens é a maior arma da PM e da situação no poder, agora estão todos ai assistindo a violência e com aquela cara de “se eu soubesse o que está acontecendo” ou “não vou compartilhar nada porque não tenho opinião formada” ou, pior, “porque eles foram morar lá?”. Vergonha é pouco.


LG




Intertexto - Bertolt Brecht

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.



sábado, 21 de janeiro de 2012

.Um espelho do lado do sofá pode ser considerado uma companhia?


Pode sim!

.Rio que não é rio é miragem.

Porém eu te sofri.
Rasguei-me as veias, tigre e pomba, sobre tua cintura em duelo...

Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena noite.




Garcia Lorca

.A autoridade.


Em épocas remotas, as mulheres se sentavam na proa das canoas e os homens na popa. As mulheres caçavam e pescavam. Elas saíam das aldeias e voltavam quando podiam ou queriam. Os homens montavam as choças, preparavam a comida, mantinham acesas as fogueiras contra o frio, cuidavam dos filhos e curtiam as peles de abrigo. Assim era a vida entre os índios onas e os yaganes, na Terra do Fogo, até que um dia os homens mataram todas as mulheres e puseram as máscaras que as mulheres tinham inventado para aterrorizá-los. Somente as meninas recém-nascidas se salvaram do extermínio. Enquanto elas cresciam, os assassinos lhes diziam e repetiam que servir aos homens era seu destino. Elas acreditaram. Também acreditaram suas filhas e as filhas de suas filhas.


Eduardo Galeano



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

.Eu e minhas tripas.


O tempo não roerá o verso da minha boca.