sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

.Ao defunto pobre.

O nosso pobre pobre


Não saberá que fazer com tanto céu.


Poderá ará-lo, semeá-lo, colhê-lo?


Isso ele o fez sempre, duramente


lutou com os torrões,


e agora é suave o céu para lavrar.


O nosso morto-pobre que leva, por fortuna,


sessenta anos de fome cá de baixo,


e para saciar, por fim, como é devido,


sem que a vida mais pontapés lhe dê,


sem que o prendam só porque come,


debaixo da terra, no seu ataúde


já não se mexe, nem se defende,


nem lutará pelo seu salário.


Nunca esperou tanta justiça este homem,


Abarrotaram-no de repente e de repente agradeceu:


Ficou calado de tanta alegria.



NERUDA, P. Plenos Poderes. Lisboa: Dom Quixote. 1977 (p.69)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

.Passou o cavalo na frente, monta!




Águas e luares, eu sendo. bem-vindo e eterno rio onde existo e existindo morro sendo.

.A onda agora é estudar a ONU.

.Saudade é sentir que existe o que não existe mais...


Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam.


(Se ela soubesse...)

.Com-Tour as 20h, você vem?




quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

.Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.

Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...


Fernando Pessoa

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

.Onde será que isso começa? Não há meada, é só o fio.

Não estava brincando quando disse que quanto a mim as coisas sempre chegaram pelo correio, cartas, vinhos, poesia, felicidade encaixada, sorrisos, mas hoje fui surpreendida com flores. Repito: quanto a mim as coisas sempre chegaram pelo correio. Perfume para a casa nova. Decoração para o quarto vazio. Cor para os meus olhos. Quanta satisfação. E de onde surge? Por que me tiras da cama o carteiro com aquele amarelo-azul-surpresa? Talvez porque esse meu jeito de ser recusa certos exibicionismos, pensarei assim. Vou passar meu café e contemplar... Só minhas!

LG


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

.Da série: café na faculdade é mais gostoso.

Eu que tomava despreocupadamente meu café sem açúcar. Na tentativa de estabelecer diálogo voltou-se para o meu lado e indagou se eu conhecia Machado. Refiz a pergunta algumas vezes antes de responder alguma coisa, senti tanto desprezo, queria levantar, talvez vomitar nela o macarrão de ontem e, mesmo assim, ainda seria delicada. Indaga-se se alguém conhece os contemporâneos, os reclusos, aqueles menos afamados. A pergunta me caiu com tom de deboche. Quis levantar, mas fiquei por consideração ao grupo. Depois tive vontade de começar citar Dom Casmurro de trás para frente. Refiz a pergunta. E achei generoso responder um sonoro não, quem é? Esperei a resposta atenta. Quando me deparei com tanto despreparo tive pena do desperdício das citações ou do macarrão. Machado foi... primeiro ano do curso, caro leitor. Descobri depois. Tinha acabado de conhecer o prédio da biblioteca. Que amor de formas, as mãos esticadas, o sorriso seguro e já conhecedora de Machado. Terminei o café e prometi que buscaria algo desse tal Machado, quem sabe me prendesse, quem sabe... levantei falando.

LG


domingo, 15 de janeiro de 2012

.Senta e me escuta, isso está tudo errado.

Voltar a escrever significa, dentre outras coisas, devolver seu café da manhã. Agora te pergunto quando vai enlatar maresia e enviar para minha caixa postal? São dias insanos! Por aqui papéis e textos, livros e teses, artigos incompletos, prazos esmurrando a porta. O que você tem feito além de estudado freneticamente? Com que tem se preocupado? Quanto mais me afasto, mais penso que o erro se agiganta e tenho medo do tombo. Estaríamos felizes? Estaríamos sem preocupações se permanecêssemos com aquele pensamento mediano, assistindo telenovelas, virando páginas sorridentes das revistas de cabeleireiro? Por que insistir em ser esse tudo-nada, ter esses planos beirando a genialidade intelectual, ganhar prêmios defendendo a humanidade e debochar de políticos? Para que manter a pose esculpida e discutir sobre tudo, usar palavras complicadas, racionalizar o anúncio publicitário? Vai chegar onde? Onde você vai chegar? O descontentamento graça o mundo. Tenho Hilst e Neruda me esperando aqui do lado, enquanto cumpro mais uma exigência dos programas assombrados pelo CNPq, e que monstro és? Que monstro enclausurado sonha se tornar? Uma biblioteca no sítio, uma pousada no outono, um lugar sem pessoas... não sei mais. Você sabe?

LG

sábado, 14 de janeiro de 2012

.Meu peito magro cada vez mais afundava, que subida, que caminho de cabras.


Os peitos agrandados e fervente, eu olhava o caminho, ela à frente não se voltava, os cabelos de tão pesados acompanhavam-lhe os passos, farto molho de fios e fios, transpirava tão grande que a raiz dos seios via-se molhada, a blusa de amarelos com ramagens parecia viva como se vê nos campos o capim orvalhando.



Hilst, H. Tu não te moves de Ti. SP: Globo, 2004.



sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

...

Quino. Toda Mafalda p.117

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

.Consta nos mapas, nos lábios, nos lápis, consta nos Ovnis, no Pravda, na Vodca.

Consta nos astros, nos signos, nos búzios. Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás, serás o meu amor, serás a minha paz. Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas, eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais. Serás o meu amor, serás a minha paz. Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar, mas se o destino insistir em nos separar... Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas, os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos, profetas, sinopses, espelhos, conselhos. Se dane o evangelho e todos os orixás, serás o meu amor, serás, amor, a minha paz. Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela está no seguro, pixaram no muro, mandei fazer um cartaz serás o meu amor, serás a minha paz.

.Não sei para onde deve seguir meus parabéns.

Mando entregar meu abraço em Trento ou em Londres? Onde mato minha saudade de você? Se eu pudesse roubar seu pedido de aniversário desceria a faca no bolo pensando: que ela volte e devolva minhas conversas interessantes em algum lugar de Londrina. Parabéns minha sommelier favorita.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A operação mata-mendigos foi um processo de limpeza social.

TOPOGRAFIA DE UM DESNUDO de Teresa Aguiar conta a estória de um fato que abalou o início dos anos 60: a operação mata-mendigos. Esse episódio aconteceu no Rio de Janeiro, e culminou com a morte de vários moradores de rua, que eram presos, torturados e depois jogados aos rios Guandú e da Guarda. Alguns pesquisadores ligam as torturas a uma espécie de treinamento pelo qual estavam passando quadros da própria polícia, já que o fato aconteceu na ante sala do golpe militar. Mas o consenso é que o fato estava ligado à visita da Rainha Elizabeth ao Brasil.

Em 1972, Teresa Aguiar era professora da Escola de Arte Dramática (EAD) da USP e foi com um grupo de alunos apresentar O Rato no Muro de Hilda Hilst no Festival de Teatro de Manizales, Colômbia. Nesse festival foi apresentada a obra Topografia de um Desnudo do chileno Jorge Diaz, que escreveu a peça baseado numa matéria que saiu nos jornais do Chile sobre a operação mata-mendigos.

.De Hilda Hilst, na voz de Maria Bethânia, "Ode Descontínua e Remota, para Flauta e Oboé, de Ariana para Dionísio, Canção III".