quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

.Andava insone, roxas olheiras, teria que ter mais cuidado.

Depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, por dentro de mim, que talvez eu não quisesse que soubessem que eu era eu, e eu era. Começou a acontecer uma coisa confusa na minha cabeça, essa história de não querer que soubessem, encharcada naquilo tudo de fracasso, tive vontade de voltar para algum lugar seco e quente, se houvesse, e não lembrava de nenhum.

ABREU, Caio Fernando. Morangos Mofados. RJ: Agir, 2005. (p.46)



.Eu podia mas não queria.

Era preciso um esforço tão terrível que precisei sorrir mais sozinha e inventar mais um pouco a felicidade, aquecendo meu segredo, cozinhando-o, e dei alguns passos, mas como se faz? Me perguntei, como se faz isso de colocar um pé após o outro, equilibrando a cabeça sobre os ombros, mantendo ereta a coluna vertebral, desaprendia, não era quase nada, eu, mantida apenas por aquele fio invisível.

ABREU, Caio Fernando. Morangos Mofados. RJ: Agir, 2005. (p.47)

.Oferece a outra face, mas não esquece o que lhe fazem.


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

.Cada um tem seu martírio.

E mentalizava de olhos fechados...me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que me faça acreditar em tudo outra vez, que leve para longe da minha boca este gosto podre de fracasso, este travo de derrota sem nobreza, esse medo, pois a noite já vem chegando.

ABREU, Caio Fernando. Morangos Mofados. RJ: Agir, 2005. (p.29)

.Só para que você não me confunda.

O que aconteceu é que como bons-intelectuais-pequeno-burgueses o teu negócio é homem e o meu é mulher, podíamos até formar um casal incrível, tipo aquela amante de Virginia Woolf, entende? Como era mesmo o nome dela? Vita, isso, Vita Sackville-West e o veado do marido dela, ora não se erice, queridinho, não tenho nada contra veados não!

ABREU, Caio. (p.26)

.Passei a ter medo do Caio visionário. Tudo bem, de que eu não tinha medo?

Eu te olhava entupida e babava soluçando, perdi minha alegria, anoiteci, roubaram minha esperança, enquanto você, solidária & positiva, apertava meu ombro com sua mão apesar de tudo viril repetindo reage, companheira, reage, a causa precisa dessa tua cabecinha privilegiada, teu potencial, tua lucidez libertária e blábláblá blábláblá.

Assustadoramente,

ABREU, Caio Fernando. Morangos Mofados. RJ: Agir, 2005. (p.22)