domingo, 29 de agosto de 2010

.Amou daquela vez como se fosse a última.

O meu gostar por você chegou a ser amor, pois se eu me comovia vendo você, pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo, meu Deus…como você me doía! De vez em quando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno, bem no meio duma praça, então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta, mas tanta coisa que eu vou ficar calado um tempo enorme…só olhando você, sem dizer nada só olhando e pensando: Meu Deus, mas como você me dói.

CF



terça-feira, 17 de agosto de 2010

.Americanizava-se e africanizava-se conforme fosse preciso.

CAPÍTULO II - A DEMOCRACIA COMO MAL-ENTENDIDO

As Constituições são feitas para não serem cumpridas, as leis existentes para serem violadas, tudo em proveito de indivíduos e oligarquias, são fenômenos correntes em toda a história da América do Sul.

HOLANDA, S.B

Era uma democracia reinventada, aos moldes frouxos dos trópicos quentes.

Era o princípio de toda grande safadeza.

Legiões de homens famintos, sucumbindo para alimentar uma só boca.

Era a prostituição dos ideais, todos eles nítidos na morte dos muitos,

que aprenderam a falar pouco.

LG.


CAPÍTULO II - A DEMOCRACIA COMO MAL-ENTENDIDO

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

.De que nos serve, porém, querer penetrar a todo o transe esses segredos importunos?

Aos últimos, porém, o viver quotidiano nem os deixa oprimidos nem os desata dos cuidados terrenos, e o freio que parece moderar sua fantasia é uma esperança contente e sossegada.


Visão do Paraíso.




Cercado de uma chusma de homens e mulheres, sempre atentos e gulosos de ciência.

E se todas as coisas ali surgiam magníficas para quem as viu com os olhos da cara, apalpou com as mãos, calcou com os pés, não seria estranhável que elas se tornassem ainda mais portentosas para os que sem maior trabalho e só com o ouvir e o sonhar se tinham por satisfeitos. Onde mais minguada for a experiência, mais enfunada sairá a fantasia.

Visão do Paraíso. Sérgio Buarque de Holanda.



sexta-feira, 30 de julho de 2010

.O que ela leu pra mim.

Marcela estava reclinada numa rede, o gesto mole e cansado, uma das pernas pendentes, a ver-se-lhe o pezinho calçado de meia de seda, os cabelos soltos, derramados, o olhar quieto e sonolento. [...] E mostrei-lhe o pente com os diamantes. . . Marcela teve um leve sobressalto, ergueu metade do corpo, e, apoiada num cotovelo, olhou para o pente durante alguns instantes curtos; depois retirou os olhos; tinha-se dominado. Então, eu lancei-lhe as mãos aos cabelos, coligi-os, enlacei-os à pressa, improvisei um toucado, sem nenhum alinho, e rematei-o com o pente de diamantes; recuei, tornei a aproximar-me, corrigi-lhe as madeixas, abaixei-as de um lado, busquei alguma simetria naquela desordem, tudo com uma minuciosidade e um carinho de mãe. [...] A segunda foi puxar-me para si, e pagar-me o sacrifício com um beijo, o mais ardente de todos. Depois tirou o pente, admirou muito a matéria e o lavor, olhando a espaços para mim, e abanando a cabeça com um ar de repreensão: Marcela refletiu um instante. Não gostei da expressão com que passeava os olhos de mim para a parede, e da parede para a jóia; mas toda a má impressão se desvaneceu, quando ela me respondeu resolutamente:

- Vou. Quando embarcas?

MACHADO, A.

.Eu te vejo sair por aí, te avisei que a cidade era um vão.