segunda-feira, 15 de março de 2010

.O homem nasce livre e em toda a parte está a ferros!

Nenhum de nós sabe, na verdade, o que se passa nos bastidores da política nacional ou internacional. Quem é que lê no Brasil? E por que a área da cultura e da educação é tão desprezada? Porque não só não convém que leiam como não convém que tenham uma formação crítica.

HILST, H. Cascos & Carícias & outras Crônicas. SP: Globo, 2007. (p.229)



domingo, 14 de março de 2010

.Não consegui lembrar mais nada.

O silêncio tornou-se tão denso que cada movimento precisava ser feito devagar, como se o ar pesasse à nossa volta.

.Brindamos a qualquer coisa que ainda não viera.

Não sei se tive medo — dos cães, da noite, dos corpos — ou se apenas queria que me vissem. De alguma forma, pensava confuso que jogando luz sobre a cozinha outra vez nos olharíamos nos olhos. Parecia importante saber se a mão no meu cabelo pertencia a Pedro ou a Virgínia, se a boca contra a minha era de Júlio ou Martha e assim, pensei, também os outros. Para que soubéssemos, acho, da exata medida e intenção de cada toque em cada membro, foi que acendi a luz. Como um filme que de repente pára, todos me olharam imobilizados no que faziam. Eu era o centro móvel do que começaria a acontecer no próximo momento. Marília olhou como se procurasse censura nos meus olhos. Mas eu queria festa, não dor.


Caio Fernando Abreu - Sétimo Fragmento da Décima Terceira Voz



sábado, 13 de março de 2010

.Análise do Discurso.

A unidade do pensar e do ser só tem sentido e verdade quando se concebe o homem como fundamento, como sujeito dessa unidade. A satisfação das necessidades elementares cria necessidades novas e a criação de necessidades novas constitui o primeiro ato da história.


FEUERBACH/ A ideologia Alemã



sexta-feira, 12 de março de 2010

.As canções que me faziam lembrar dela.

Havia achado, sempre, que morrer de amor não era outra coisa além de uma licença poética. Naquela tarde, de regresso para casa outra vez, sem o gato e sem ela, comprovei que não apenas era possível, mas que eu mesmo, velho e sem ninguém, estava morrendo de amor. E também percebi que era válida a verdade contrária: não trocaria por nada neste mundo as delícias do meu desassossego. Havia perdido mais de quinze anos tratando de traduzir os cantos de Leopardi, e só naquela tarde os senti a fundo: Ai de mim, se for amor, como atormenta.


GARCIA MÁRQUEZ, G. Memórias de Minhas Putas Tristes. RJ: Record, 2009. (p. 95)