quarta-feira, 3 de março de 2010

.E a liquidez se fazia minha, sempre me dando vida quando essa se escondia no vazio.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: "É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso". Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

Charles Baudelaire



.Logo agora.


Eu ouvi dizer que você, assim,
como quem não quer nada perguntou por mim.


.Deixe-me tatear teu hálito, obscuro que estou.

Comprem o meu abismo de ser e de ter sido, meu lado compassivo, o fervoroso de mim que foi perdido, comprem minhas frases (se as houver) na agonia visceral da despedida, e se eu não disser comprem o silêncio do poeta. Comprem minha mesa, minha terra, meu lápis, meus poemas primeiros, meus versos derradeiros, ah sim, meus rutilantes neurônios, minhas rugas magras, comprem! Estamos todos à venda.


HILST, H. Cascos & Carícias & outras Crônicas. SP: Globo, 2007. (p.203)



terça-feira, 2 de março de 2010

.Só as coisas de rasa importância.

Os ensaios são atribuídos às idéias, como “sendo eternas e não mudando e nem desaparecendo, não se alterando nem diminuindo”; “um ser por si mesmo, para si mesmo, eternamente uniforme”; apesar disso o ensaio continua sendo “idéia”, pois não capitula diante do peso do ente, nem se curva diante do que apenas é.

Theodor Adorno. O ensaio como forma.