quarta-feira, 10 de junho de 2009

.O que juro, o que sei, é que tucano tem papo.

Olhe, o que devia de haver era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições gradas, fecharem o definitivo a noção – proclamar por uma vez, artes assembléias, que não tem diabo nenhum, não existe, não pode. Valor de lei! Só assim davam tranqüilidade boa à gente. Por que o Governo disso não cuida?



terça-feira, 9 de junho de 2009

.Embora amor dentro de mim eu tenha.


Depois de certo tempo cada um é responsável pela cara que tem. Vou olhar agora a minha. É um rosto nu. E quando penso que inexiste um igual ao meu no mundo, fico de susto alegre.

.Mas por que esse mal-estar?


Vou te fazer uma confissão: estou um pouco assustada. É que não sei aonde me levará esta minha liberdade.
Não é arbitrária nem libertina. Mas estou solta.

O jasmim é dos namorados. Dá vontade de pôr reticências agora.


Mas como fazer se não te enterneces com meus defeitos, enquanto eu amei os teus.

domingo, 7 de junho de 2009

.Condição básica.

Se ao menos a moça estivesse

fora de seus muros.

Que minucioso trabalho de paciência

o de cercá-la.

.Alegre até doer.


.O Dito não brigava de verdade com ninguém, toda vez de brigar ele economizava. Miguilim sempre queria não brigar, mas brigava, derradeiramente, com todos. Tomara a gente ser, feito o Dito: capaz com todos os horários das pessôas... [...] O Dito dizia que o certo era a gente estar sempre brabo de alegre, alegre por dentro, mesmo com tudo de ruim que acontecesse, alegre nas profundas. Podia? Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma.

.É a aceitação do outro, e de qualquer outro.


O homem é a criatura que pode se acostumar a tudo, e creio que essa é talvez a melhor definição para ele.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Lou Salome

Ouse, ouse... ouse tudo!!

Não tenha necessidade de nada!
Não tente adequar sua vida a modelos,
nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.
Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.
Se você quer uma vida, aprenda... a roubá-la!
Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer.
Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso:
algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!


— Lou-Salomé

quarta-feira, 3 de junho de 2009

.Um caso complicado de se entender.


Capricho. “Levado pela vontade esquisita de descascar uma ferida, como se a dor renovada me pudesse fazer certificar quão imensa era de fato a mágoa com que me devia entreter.” [...] “Tudo perdia a eternidade e a certeza; num ufo, num átimo, da gente as mais belas coisas se roubavam.” [...] “E o que somos senão a ventania de dores e amores, noite e dia?”



É o constante sentimento de tudo doer e não ter pensamento, nota, música, filme, qualquer expressão artística que o valha, um quadro talvez, uma pintura, um poema, nada. Tudo definha, se esvai, e os significados se corrompem. Pois o que se sabe do amor? Apenas sabemos pouco do não-amor, quando esse se manifesta nas dores mais arrebatadoras e desumanas, do sofrimento da cabeça que corre o peito, sufoca os pulmões e vai se alastrando até gelar a ponta dos pés. Onde está à pureza nisso, onde está a beleza dessas trocas?


Lg

terça-feira, 2 de junho de 2009

.O tempo andou riscando meu rosto.


Ou não somos livres e o responsável pelo mal é Deus todo-poderoso.

Ou somos livres e responsáveis, mas Deus não é todo-poderoso.

domingo, 31 de maio de 2009

.Enquanto dure.

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permita que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.

.Cansada.



Estou cansado, é claro,

Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado

De que estou cansado, não sei:

De nada me serviria sabê-lo,

Pois o cansaço fica na mesma.

A ferida dói como dói

E não em função da causa que a produziu.

Sim, estou cansado,

E um pouco sorridente

De o cansaço ser só isto -

Uma vontade de sono no corpo,

Um desejo de não pensar na alma,

E por cima de tudo uma transparência lúcida.


sexta-feira, 29 de maio de 2009

.Mais uma do velho safado 'Bukowski'


Eu era sentimental em muitas coisas: a uns sapatos de mulher sob a cama; a um gancho abandonado sobre a cómoda; ao modo de dizer "vou fazer xixi"; fitas do cabelo; descer a avenida com elas à uma e meia da tarde, apenas duas pessoas a caminhar; as longas noites em que se bebe, fuma e se conversa; os argumentos; pensar no suicídio; comermos juntos e sentirmo-nos bem; as brincadeiras e os risos absurdos; sentir milagres no ar; estarmos juntos dentro do carro estacionado; comparar antigos amores às três da manhã; mães, filhas, filhos, gatos, cães; por vezes a morte, por vezes o divórcio, mas continuar sempre; ler o jornal sozinho num quiosque e sentir náuseas por ela estar casada com um dentista com um Q.I. de 95; corridas de cavalos, os parques, ou piqueniques no parque; até cadeias; os sinistros amigos dela, os nossos amigos sinistros; os nossos copos e as danças dela; os teus engates; os engates dela; os comprimidos dela, as tuas fodas por fora e as dela; dormir juntos.


“Imaginem se por uma eventualidade viesse a se cruzar Hilda Hilst e Bukowski”

lg

quinta-feira, 28 de maio de 2009

.As gavetas do inconsciente.

Aos 79 gostaria de loquear um pouco. É bom ser estranho e velho. Que menina medonha! É sua filhinha, é? E esse é seu marido? Ahhh... então é por isso! Coitaaaada! E talvez colocasse um balde na cabeça à guisa de chapéu, como aquela baronesa Elza von Fretag von Loringhoven que também enfeitava a cara com selos... e morava no mesmo bairro onde moravam Henry Miller e June. Eu andaria com o meu balde e desenharia lindas borboletas na minha cara, aqui mesmo, na minha torre de capim. E vou dizer muitas verdades a alguns, principalmente àquele meu amigo banqueiro, riquíssimo (aliás acho que vou dizer agora) a quem pedi que editasse meu livro como brinde, no seu banco, e ele disse: você é mesmo boba, Hilda, ninguém mais lê poesia... Eu disse: mas você era tão sensível e gostava tanto de poesia e é filho de um poeta... Ele: agora eu só sou sensível depois das nove da noite. E eu deveria ter dito a ele o que vou dizer agora: e se eu te chupar a bronha depois das nove da noite, te sensibiliza e você edita? Só que aos 79 ia ser melhor porque eu estaria sem dentes... Ah, banqueiros, meus amigos, caixão não tem gaveta, viu?



quarta-feira, 27 de maio de 2009

.Era talvez a saciedade do sofrimento.

Aventurei-me pelas linhas de Alencar esses dias. Temi escolhe-lo justamente por seu caráter romântico, prefiro os realista-naturalistas, mas no fim não me arrependi. O escolhido foi um dos romances urbanos, uma narrativa curta onde estava retratado os costumes de uma sociedade do século XIX e em especial os traços psicológicos de uma bela mulher que deu ao título o nome de DIVA, enfim, quis concluí-lo para citar uma boa passagem, talvez a melhor aos meus olhos, pois bem...


"Eu assistia, deslumbrado, às erupções que produzia o orgulho ofendido naquela alma inteligente.

Ela afrontou-me com o olhar.

- O senhor é um infame! Disse com arrogância.

Fiz um esforço supremo, inclinei-me para beijar-lhe a fronte em sinal de despedida. Ela atirara rapidamente para trás a altiva cabeça, arqueando o talhe; e sua mão fina e nervosa flagelou-me a face sem piedade.

Quando dei acordo da situação, a senhora se encontrava a meus pés. Sem sentir eu lhe travara os pulsos e a prostrara de joelhos diante de mim, como se a quisera esmagar. Apesar da minha raiva e da violência com que a molestava, essa orgulhosa menina não exalava um queixume; soltei-lhe os braços magoados.

- Criança! Murmurei afastando-me"


O orgulho ofendido flagelou-me a face.