Poderiam perguntar-me se sou príncipe ou legislador para escrever sobre política. Respondo que não e é por isso que escrevo sobre a política. Se eu fosse príncipe ou legislador, não perderia meu tempo em dizer o que é preciso fazer. Eu o faria ou me calaria. O homem nasceu livre e em toda parte se encontra sob ferros.
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger, A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas...
Eu via tudo o que passava diante de mim, - flagelos e delícias, - desde essa cousa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo.
Agora que já lhes disse quase tudo, meus suavíssimos amigos, meus preclaros inimigos, meus amores, todos esses nos quais me perdi, todos esses a quem dei tudo, da planta dos pés às pontas tripartidas dos cabelos. Dei tudo de mim, dei todo o amor, dei toda crueldade.
Ninguém esperava por ela. Injusta e incontrolável. Não escolheu uma boa hora para aparecer. Trouxe-me um problema e um amigo. Júnior. Poupou-me o nome do pai, fiquei apenas com o título. Essa mania de Júnior, Neto, Sobrinho é algo que pegou entre a burguesia. Enfim. Mas quanto a ela, que chegou, sem se anunciar, com seus pingos e sua euforia, fazendo questão de molhar todos que estavam despreparados, me surpreendeu. O homem desenvolveu, melhor, o ser humano desenvolveu (vai que alguma feminista leia o texto), maneiras para amenizar os impactos da natureza, mas nessa hora eu estava desprovida de todos. Sem sombrinha colorida. Mas, quando tudo parecia perdido, eis que surge, Júnior, que poderia passar por aqui e receber minha gratidão. Retirou-me dos pingos, deu-me cobertura e partiu após me deixar em casa. Quem disse que não existem homens como antigamente?
Era eu nua na rua
Usando e abusando do verbo provar
Um beija-flor, flor em flor, bar em bar
Bem ou mal, mergulhar, mergulhar
sempre menina franzina, traquina
Querendo de tudo tomar
Sempre garota, marota tão louca
A boca de tudo querendo levar
Vida, vida, vida
Que seja do jeito que for
Mar, amar, amor
Se a dor quero o mar dessa dor
Quero o meu peito repleto
De tudo que eu possa abraçar e abraçar
Quero a sede e a fome eternas
De amar e amar e amar e amar
Vida, vida, vida...
Estou amando. Amando minha fonte de conhecimento e os instrumentos dela para me manter interessada por horas consecutivas a fio. Amando as formas, os métodos, os traços, a didática, a timidez, a neutralidade. Amando o modo impositivo, mesmo que disfarçado, a rigidez sutil, a amplitude teórica. Amar é, mais do que nunca, precisar de.
Um dia desses, há um tempo atrás, me surpreendi com um fato que ocorreu no meu antigo trabalho, estava alugando o apartamento que eu morava, claro que me desesperei, gostava dele, e não me imaginava em outros lugares, mas tive necessidade de experimentar novas experiências, hoje estou em outro lugar (que parece ser transitório), mas que me assusto só de pensar que pode um dia deixar de ser meu.
Analisando por um lado mais emocional, acredito que depositamos em nossos objetos muitos sentimentos que deveriam ser despejados em pessoas, aos vizinhos (talvez), entretanto, quem não se apega a sua prateleira que parece ter sido construída com o intuito de habitar aquele canto específico, bem naquele cômodo que você a destinou e que se completa com o nível exato de luminosidade dado a ela pela janela?
Enfim, acontece assim com a cama, com o espelho, com o quadro, com os ursos, com os livros, com a cadeira, com a balança, com o ventilador, com o violão, com o violino...ah esse mundo das mercadorias e essa sociedade moderna e líquida, querido Bauman, por que a modernidade é tão dinâmica que impossibilita que as pessoas parem em um lugar, morem lá, cresça lá, viaje se quiser, mas que tenha em algum lugar seu refúgio? E por que ela esconde isso, camufla, finge que não acontece mais acontece, faz você pensar que não tem saudade dos outros apartamentos, dos outros quartos, dos outros vizinhos, quando você tem tudo isso? Bauman, meu bom homem, onde vamos parar com as coisas que inventamos, até quando vamos fingir ser seres tão dotados de individualidade e independência? Zygmunt Bauman me convide para tomar um café?
Verdade ou não, o que se diz a respeito dos homens ocupa muitas vezes em sua vida, e sobretudo em seu destino, um lugar tão importante quanto aquilo que fazem. Há muitas bocas que falam e poucas cabeças que pensam.
Quem sou, sinceramente, estudante de sociologia, daquelas pessoas que para sempre terão que conviver com a pergunta da vizinha: mas o que você faz mesmo? Leitora viciada e jogadora de xadrez aposentada.
Nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que, foi esta que eu segui. Talvez porque para outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós.
Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas" Clarice Lispector